Eu venho pensando muito sobre qual seria a minha essência, ou seja, como é o Armando tal qual Deus pensou quando me criou. Que características, talentos e até limitações fazem parte do meu eu “original de fábrica”.
Por que isto?
Porque com o tempo, com a nossa educação, com os costumes de nossa sociedade, com nossas experiências pessoais, nós vamos escondendo nossa essência, mascarando o que realmente somos, vestindo papeis e isso me fez parar e pensar: Quem é o Armando , afinal?
Então eu comecei a me esforçar para pensar em mim, quando criança, como eu era, quais eram as coisas que eu gostava, o que me fazia sonhar, o que fazia eu me sentir feliz.
Eu sempre gostei de aventuras. E como foi bom crescer em Santos tendo um espírito aventureiro. Atravessar a rua e ir brincar num terreno baldio no outro lado da rua foi uma das primeiras aventuras emocionantes e eu ainda me lembro do que senti ao entrar num lugar cheio de mato, árvores e teias de aranha! Ir para a escola sozinho de ônibus com 8 ou 9 anos também era uma grande aventura e me dava uma sensação de liberdade e autonomia enorme. Eu também gostava muito de sonhar acordado com aventuras de descobrir lugares inexplorados, de desvendar mistérios ocultos, de ser herói para alguém. Outra coisa que me lembro bem é gostar de desafios intelectuais. De pensar num problema e procurar resolvê-lo da melhor maneira possível. Pode parecer “coisa de gente grande”, mas modificar um brinquedo, construir algo, desmontar um eletrodoméstico velho sempre me atraiu muito, como também fazer planos infalíveis para provocar minhas irmãs, mas isto é um outro assunto…
Acredito que temos uma essência que vai se escondendo com o tempo, sobre esta essência vai se depositando sujeira, vai formando uma crosta que com o pecado e com nossos traumas perdemos esta essência de vista. E o mais triste é quando, lembramos como éramos mas não acreditamos que podemos recuperá-la novamente. Achamos que aquilo era coisa do passado, que nossas experiências de vida não nos permitem mais viver como Deus nos fez. E isso é um grande erro, estimulado pelo inimigo de Deus, o diabo, que nos quer longe do plano de Deus para nós!
Jesus falou, em seu diálogo com Nicodemos: “Em verdade, em verdade, te digo: se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus.” (Jo 3) , ou seja, é preciso nascer de novo e este nascer da água e do Espírito, o que seria senão voltar à nossa essência? Voltar ao projeto de Deus para nós, ao nosso Batismo. Não é por acaso que o Batismo apaga o pecado em nós, infunde o Espírito Santo e nos insere no seio do corpo de Cristo.
Mas Jesus não se limitou a isso para nos comunicar a importância deste voltar à nossa essência:
Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus.” (Mt 18,3.)
É preciso redescobrir-se, é preciso tirar a sujeira acumulada sobre nossa essência e deixar que ela brilhe com as cores originais, pois é esta a vontade de Deus.
A psicologia descreve um fenômeno que nada mais é do que um descobrir essa essência através de uma outra pessoa. Esse mecanismo, certamente foi bolado por Deus, para nos dar uma oportunidade de voltarmos à nossa origem. Me desculpem os psicólogos se houver uma imprecisão técnica, mas estou falando de projeção.
Quantas vezes não descobrimos alguém, que tem características parecidas conosco, e nos apegamos ou implicamos com esta pessoa e nem nos damos conta de que muito desse apego ou implicância vem da parte de nós que vemos no outro, normalmente a nossa essência que ficou escondida e que começamos a ver de novo ou os defeitos que nos fizeram fugir de nossa essência.
Esta projeção pode ter dois efeitos:
O primeiro é termos uma enorme atração por esta pessoa porque ela representa algo que nós gostávamos em nós e achamos que perdemos. É nestes casos que podem haver enormes decepções, quando o outro cai num erro que nós caímos e que não gostamos de vê-lo novamente através de nossa projeção. Idealizamos o outro e não perdoamos o outro quando ele fica parecido com a parte que não gostamos de nossa história, temos dificuldades de perdoar, queremos ficar longe, longe não do outro, mas do que nos afastou de nossa essência.
O segundo caso, mais fácil de identificar, é quando a pessoa nos incomoda porque tem os nossos defeitos e não queremos que eles fiquem aparecendo diante de nós como uma lembrança indesejada. Isto é bem comum em pais que tem filhos muito parecidos consigo e que, vira e mexe, estão brigando, se desentendendo sem se dar conta de que o pai ou a mãe se projetam no filho e dói muito ver seus defeitos estampados nestes.
Qual o caminho para a cura disso tudo? Qual o Bombril da alma?
O perdão.
Logicamente voltar a essência é um caminho que não dá para fazer sem tirar as camadas de sujeira que se acumularam durante os anos. Isso dói, isso dá trabalho, isso exige de nós. E para cada camada é preciso exercitar o perdão. Primeiro a nós mesmos, depois às pessoas que nos ajudaram a sujar nossa essência.
Esta é uma caminhada, um processo de cura que Deus nos ajuda em muito, com seu exemplo de misericórdia, como fez com o filho pródigo.
Por fim eu peço a cada um, especialmente às pessoas que tem um senso de justiça extremamente aguçado, porque não se perdoam e tem uma enorme dificuldade de perdoar os outros: dêem um crédito à misericórdia de Deus. Deixem-se finalmente lavar pelo sangue de Jesus na cruz. Aceitem que esse sacrifício foi justamente feito para apagar as nossas manchas. Permitam-se brilhar de novo com as cores que o Pai deu à sua vida.
Eu estou tentando fazer isso e espero que possa , como um carro de colecionador, sair pela rua exibindo uma chapa preta com o número ADP 1961.
P.S. chapa preta de carros de colecionadores indica que o carro tem mais que 80% de peças originais.