O corpo e a atitude

            Muito se discute sobre a licitude do prazer sexual no matrimônio cristão, o ser ou não ser certo desejar este prazer e , se certo, como obtê-lo de forma intensa e sem culpa.

Primeiramente é preciso ter claro que Deus nos criou com a finalidade de sermos amados por Ele e de nos amarmos mutuamente. Também nos criou com o impulso sexual e portanto este impulso tem que ser algo bom, pois Deus não faz nada para o mal. E nos orientou nas escrituras e através da Igreja, sobre o contexto certo para obtermos o máximo deste componente importante do relacionamento de casal, o sexo.

             Em várias passagens das escrituras o Senhor compara o Seu amor por nós com um matrimônio como por exemplo:  

“Pois teu esposo é teu Criador, chama-se o Senhor dos exércitos, teu Redentor é o Santo de Israel, chama-se o Deus de toda a terra. Como uma mulher abandonada e aflita Eu te chamo; pode-se repudiar uma mulher desposada na juventude? Diz o Senhor teu Deus.“ Is 54, 5-6            

E em outras tantas passagens fala do relacionamento homem mulher com todos os seus componentes emocionais, físicos e espirituais:

“Por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe para unir-se à sua mulher; e já não são mais que uma só carne.” Gen. 2,24

“Então Tobias encorajou a jovem com estas palavras: Levanta-te, Sara, e roguemos a Deus, hoje, amanhã e depois de amanhã. Estaremos unidos a Deus durante estas três noites. Depois da terceira noite consumaremos nossa união; porque somos filhos dos santos, e não nos devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus.” Tob 8, 4-5 

“Como são graciosos os teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe! A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista; teu umbigo é uma taça redonda, cheia de vinho perfumado, teu corpo é um monte de trigo cercado de lírios; teus dois seios são como filhotes gêmeos de uma gazela; teu pescoço é uma torre de marfim, teus olhos são fontes de Hebron junto à porta de Bat-Rabim. Teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para os lados de Damasco; tua cabeça ergue-se sobre ti como o Carmelo, Tua cabeleira é como a púrpura, e um rei se acha preso aos seus cachos.” Can 7,2-6

Vejamos o que a Igreja nos ensina no Catecismo da Igreja Católica no ponto 1643 

Os bens e as exigências do amor conjugal

 “O amor conjugal comporta uma totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa – apelo do corpo e do instinto, força do sentimento e da afetividade, aspiração do espírito e da vontade ; o amor conjugal dirige-se a uma unidade profunda­mente pessoal, aquela que, para além da união numa só carne, não conduz senão a um só coração e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação recíproca definitiva e abre-se à fecundidade. Numa palavra, trata-se de características normais do amor conjugal natural, mas com um significado novo que não só as purifica e as consolida, mas eleva-as, a ponto de torná-las a expressão dos valores propriamente cristãos”.

Como vemos não há um só ponto em que se nega a presença do componente físico no amor conjugal, ao contrário sempre o coloca com papel importante ainda que não o mais importante do relacionamento do casal. E por fim há sempre a confusão de que o sexo só existe para a procriação, o que é um erro como veremos a seguir.  

Como dissemos no início do texto, Deus nos criou para sermos amados por Ele. A criação é um impulso amoroso de Deus . É uma característica de Deus que foi transmitida ao homem, pois fomos criados a sua imagem e semelhança. O amor em sua essência e plenitude é Deus  Criador. Portanto o casal que se ama e tem como fonte desse amor o próprio Deus tem que ter este impulso criador, senão seu amor é incompleto seu amor é imperfeito.

E este impulso criador nos leva a querermos os filhos, a estarmos abertos aos filhos, até quando não podemos tê-los por qualquer razão física.  Assim, o amor aberto à procriação, mesmo quando não gera uma nova vida é mais completo e causa mais gozo e plenitude à vida dos cônjuges do que o amor fechado à possibilidade de gerar uma nova vida.  

Entendendo os argumentos acima , certamente entenderemos a doutrina da Igreja quanto ao uso de anticoncepcionais artificiais. Mas aqui não vamos entrar no mérito da questão.  

 Agora já podemos tirar algumas conclusões importantes: 

-          O sexo é bom, pois foi criado por Deus.

-          Sexo no contexto do matrimônio não é pecado, ao contrário é um presente, uma graça.

-          O sexo não é exclusivo para a procriação, mas o amor tem que estar sempre aberto à criação, à geração de uma nova vida. Voltando ao título deste texto “O corpo e a atitude”, vamos nos colocar dentro do contexto do matrimônio onde homem e mulher, buscando sempre o melhor um para o outro passam todos os anos de suas vidas juntos.

As vezes nos surpreendemos com casais demonstrando enorme felicidade por estarem juntos apesar de não entendermos o porque pelos nossos julgamentos exteriores. Por exemplo, quem já não viu um belo rapaz apaixonado por uma moça “feia”? Ou uma moça lindíssima com um marido baixinho e careca? E ainda velhinhos de mãos dadas e com aparência de estarem de lua-de-mel? O que ocorre então? O que existe na vida deles que supera nossas pobres avaliações puramente estéticas?  Neste ponto eu ouso simplificar o relacionamento do casal em duas partes importantes, mas não iguais:

O corpo e a atitude. 

Na maioria dos relacionamentos, desde os primeiros namoricos, o primeiro impacto entre jovens que se enamoram é o visual proporcionado pelo corpo. Não há como negar que a beleza tem um papel importante na natureza, e nós fazemos parte desta natureza. Não vamos discutir aqui as diferenças de gostos e costumes, o que importa é concordarmos que a beleza física, de uma forma ou de outra, influencia um relacionamento. No sexo a beleza se torna atração, a atração em toque, o toque em união, a união em gozo.  E o que vem a ser a atitude?

Atitude como eu quero colocar para o leitor é um enorme conjunto de outros fatores tais como: renúncia, abertura, disponibilidade, perdão, paciência, conhecimento, sinceridade e fidelidade.  O amadurecimento no relacionamento de um casal dá cada vez mais peso à atitude, o tempo tráz consigo o melhor conhecimento um do outro a tal ponto que muita coisa nem é necessário se falar, basta um olhar ou um gesto para que o outro compreenda sua necessidade ou sua intenção; a sinceridade ajuda a superar dificuldades e faz o relacionamento crescer juntamente com o perdão, que certamente é a ferramenta indispensável de quem quer manter a chama dos primeiros tempos acesa, tudo isto crescendo com o tempo e proporcionando aos dois cada vez mais gozo e mais felicidade desde um breve olhar até no ápice de uma relação sexual.  

Ainda sobre atitude vale a pena falar da unidade entre fidelidade e felicidade, se tivermos muita fidelidade e teremos muita felicidade, mais fidelidade e mais ainda felicidade. Daí porque nossas avaliações sobre casais aparentemente tão diferentes geralmente falham. Portanto podemos concluir que enquanto o mundo só valorizar o componente corpo dos relacionamentos entre homem e mulher não haverá felicidade verdadeira em estarem juntos, não havendo esta felicidade haverá cada vez mais separações, cada vez mais filhos que sofrem e mergulham na busca de compensações para esta falta de amor que são as drogas, a bebida e mais sexo sem amor, fechando assim um ciclo vicioso aparentemente sem fim.  

Quem está preparando nossos jovens para a fidelidade?

Quem está preparando nossos jovens para aprenderem a perdoar e pedir perdão?

Quem está dizendo a eles que vale a pena renunciar a si mesmo pelo amor aos outros? 

Quem está a eles mostrando que o sexo é bom e deve ser encarado como algo santo e desejado por Deus para que os casais se realizem e sejam verdadeiramente uma só carne?

Ouvi a pouco tempo de um sacerdote em uma homilia muito enfática que  em tempo nenhum desde a antiguidade a humanidade passou por um período de tanta ignorância do que é o verdadeiro sentido do amor como em nossos dias. Mesmo com toda a tecnologia dos tempos atuais a grande crise da humanidade é de amor. Se procura, não se conhece e não se sabe onde buscar.      

Portanto homens e mulheres amem-se profundamente e vivam intensamente o seu matrimônio , a vocação a que vocês foram chamados por Deus, porque só assim nós transformaremos este mundo. 

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