Nosso amor imperfeito

Janeiro 28, 2008

Sempre tenho repetido que Deus nos criou para sermos amados por Ele. E digo também que seu amor por nós é irrevogável. E o que é ir para o céu, ou seja, estar eternamente na presença de Deus, senão poder sentir plenamente este amor, com que Ele nos ama, por todos os tempos? 

Tudo isto quer dizer que temos em nós, naturalmente, uma tendência para querermos ser amados. Deus nos criou assim, com essa necessidade de sermos amados, de procurarmos o amor. E não há ser humano que não necessite de amor: amor de Deus, amor dos pais, amor dos irmãos, primos, amigos, namorados, noivos, cônjuges, enfim de todos quantos nos rodeiam. 

E para retribuirmos o amor de Deus por nós, de forma concreta, devemos nos amar, uns aos outros, vendo a face de Cristo em cada irmão. Temos que amar o outro, temos que também ser a face de Deus para o outro. Mas, é bom sabermos que nosso amor é imperfeito, pois nós somos imperfeitos, e que esta imperfeição de nosso amor traz  conseqüências em nossas vidas.  

Então nunca amaremos como deveremos? Nosso amor sempre será capenga? Nosso amor sempre terá algo de falso? Não. Não e não. 

Nosso amor pode e deve ser sincero. Espelhado no amor verdadeiro que é o amor de Deus por nós, sem interesses próprios, visando sempre o bem do outro, colocando-nos por inteiro neste amor, até o ponto de sofrermos por amor, mais ainda, dando nossa vida por amor. Mas devido à nossa imperfeição, nós muitas vezes falhamos ao amar. 

Quem não magoou seus pais um dia? Ou não foi magoado por eles? Quem não brigou por bobagem com seus irmãos a ponto de não mais se falarem? Quem não causa dor em seus filhos, suas filhas? Quem não fere seu esposo, sua esposa, nas mínimas coisas do dia a dia?  

Ouvindo uma palestra de um sacerdote me espantei com a afirmação de que se engana quem espera o paraíso em seu matrimônio, pois o paraíso só existirá no céu. Aqui, nós falharemos, sofreremos, tropeçaremos, nos magoaremos  muitas e muitas vezes e como dizia São Paulo, por melhor que sejam as nossas intenções, não faremos sempre o bem que desejamos mas sim  mal que não desejamos. E isto não é uma frase pessimista do apóstolo, mas realista da nossa condição humana. 

Mas a falta de amor deixa marcas em nós. Por exemplo, se não recebemos amor durante nossa formação, na infância e juventude, podemos não aprender a amar. Quantos e quantos jovens estragam suas vidas simplesmente por uma enorme carência de amor? Quantos adultos vivem uma vida de adolescentes pois não aprenderam o que é amar, ficando sempre numa busca de algo que não encontram nas compensações do mundo? 

Todo o nosso mundo, tão cheio de promessas e com tantas possibilidades de gerar vida e felicidade, sofre principalmente por falta de amor. As pessoas se  esquecem de Deus, deixam a fonte do amor, desaprendem como amar, começam a procurar o seu próprio bem acima de tudo, esquecem do bem do outro e daí vem a cobiça, o ódio, o desamor e a morte que tanto estão presentes em nossas vidas modernas. Por isso Deus nos deu caminhos para superarmos estas imperfeições de nosso amor humano. 

O perdão 

É a mais extraordinária ferramenta de cura de amor que existe. Perdoar remove enormes barreiras de nossos corações. Não podemos garantir que jamais magoaremos quem amamos, mas podemos sempre pedir e dar o perdão a quem amamos. 

Inúmeros relacionamentos renasceram pelo simples fato de marido e mulher resolverem se perdoar. Mas não é fácil, exige renúncia de nosso eu, ou em bom português, colocar para baixo nossas defesas e nosso orgulho.  

Jesus, ao ser questionado por Pedro sobre quantas vezes devemos perdoar alguém, respondeu: 70 vezes 7, ou seja, sempre. Quem ama perdoa e perdoa sempre, como Deus faz conosco.  

Em nossa condição humana, de seres imperfeitos, amor não pode existir sem perdão. Em nosso relacionamento com Deus, temos o sacramento da reconciliação como arma poderosa do amor de Deus para nós. Mas em nossos relacionamentos humanos tudo depende de nós, de nosso esforço, de nossa determinação, de nossa humildade e de nosso esquecimento do mal que o outro nos causou.  Em resumo, se a relação de amor entre nós tem falhas, deve haver falta de perdão, pois nosso amor é sempre imperfeito e isto só se corrige com perdão.

 A oração de Cura Interior 

Muitas marcas pela falta de amor ficam dentro de nós, nos machucam, mas nem sempre temos consciência delas. A oração de cura interior é um tipo de oração em que, por um dom do Espírito Santo, alguém revela estas marcas para nós, através de um dom chamado Palavra de Ciência. Deus revela o que está dentro de nós. Mostra onde e quando nos faltou amor, onde e quando nos faltou perdão e principalmente Deus apaga estas marcas de nossos corações.  Mas é preciso querer.  Deus pode revelar as nossas feridas mais profundas,  curá-las , mas as marcas que elas deixaram durante anos em nossa vida, na maioria das vezes, nos conduziram a comportamentos e crenças distorcidas do que é amar. Temos que nos reeducar para o amor verdadeiro. Por exemplo, é comum quem não recebeu amor se tornar alguém duro, difícil de expor seus sentimentos, difícil de amar com o coração.

Mas quando Deus cura precisamos reaprender a amar. Em Ezequiel 36,26 Deus diz: “ Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo: tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. “ Temos que tomar posse desse presente de Deus em nossas vidas. É o Espírito Santo quem nos cura, que vai onde nós não conseguimos chegar e que transforma nossa vida para o amor. Há outros meios de cura como a Eucaristia, a oração e a vivência em comunidade, mas estes não abordarei neste texto que já se alongou demais.     


Experiência de Deus

Janeiro 10, 2008

Há alguns anos atrás eu senti que meus filhos precisavam ter uma experiência de Deus e sem refletir muito sobre o que esta expressão poderia significar encaminhei-os para um movimento católico, Movimento Pax (www.movimentopax.org.br), para que eles fizessem um encontro de jovens. 

Hoje, alguns anos depois e muito envolvimento com o movimento, não só dos meus filhos, como de toda a família, voltei a refletir no que significa esta experiência de Deus. 

Parece até fácil falar que as pessoas precisam ter esta experiência de Deus, mas o que isto significa realmente nem sempre fica claro. 

Jesus, após sua ressurreição, enviou os seus discípulos, inclusive todos nós, a anunciar a Boa Nova, o Evangelho, a toda criatura e em todos os lugares. E a Boa Nova é que Deus nos ama com amor apaixonado. Um amor que não pode acabar, um amor que não precisa de nada de nossa parte para que o tenhamos. Deus nos ama gratuitamente.

 É isto a experiência de Deus? Ainda não. 

É como se uma moça contasse para a outra que conheceu uma pessoa maravilhosa e que gostaria de apresentá-la, pois nunca tinha visto alguém “tão certo” para ela. Coisas de amigas que procuram namorado para a outra.  

Contar desta pessoa pode entusiasmar a amiga, mas ainda não houve esta experiência com a outra pessoa.  

Com Deus é assim. 

 Alguém tem que contar-nos esta boa nova, mas precisamos encontrá-lo, ouvir o que tem a dizer para nós para começarmos a entender e dar abertura para que Ele aja em nossa vida. 

Deus inspirou as escrituras, a Bíblia, para que sua comunicação conosco fosse clara e efetiva. Mas a Palavra de Deus, tem seu efeito tanto maior quanto mais pedimos que o próprio Deus nos auxilie nesse entendimento. Nós tomamos a iniciativa de ler a palavra, Deus age em nosso coração e em nosso entendimento para torná-la viva em nós.  

E quando começamos a perceber a palavra como resposta ao nosso dia a dia estamos começando a dialogar com Deus e a ter esta experiência de Deus. Deus nos fala através da sua palavra. Ele sabe das nossas necessidades e fraquezas e se comunica conosco na Palavra. 

Nas missas também temos a Liturgia da Palavra onde as leituras da Bíblia são proclamadas e em comunidade meditamos e temos a oportunidade de vivenciar a palavra de Deus.  

Aqui temos outra dimensão da experiência de Deus que é viver em comunidade. Compartilhar essa presença de Deus com pessoas que também acreditam neste Deus amoroso reforça nossas opções e fortalece a divulgação da Boa Nova de Deus. 

Também na missa fazemos orações que são diálogos com Deus e a oração é outro momento importante dessa experiência de Deus, não só na missa, mas durante todo nosso dia.  

Se reconhecermos a presença de Deus em nossas vidas e que essa presença é constante, durante todo o nosso dia podemos estar em diálogo com Deus. No trabalho, na escola, em casa, em nosso lazer, Deus sempre nos ouve, em nossos “graças a Deus”, em nossos “Deus te pague”, em nossos “Deus te abençoe”, em nossos “se Deus quiser”, ou até numa oração específica por um trabalho difícil, um ônibus atrasado, uma prova na escola, ou seja, em tudo que fazemos podemos fazer e orar ao mesmo tempo. E a resposta de Deus é paz em nossos corações, confiança e aumento de nossa fé. 

Mas nosso dia a dia nos impõe inúmeras decisões que temos que tomar, que podem ir desde a opção de levantar prontamente para ir ao trabalho ou enrolar mais um pouco na cama deixando a obrigação um pouco atrasada; ou que caminho tomar num trabalho profissional, que amizade vale a pena manter, que pessoa escolher para namorar, que lugar almoçar hoje etc. etc.  

Quem experimenta Deus em sua vida começa a perceber que há uma voz dentro de nós nos auxiliando nessas decisões do dia a dia. Das mais fáceis às mais difíceis é o Espírito Santo que começa a falar em nós e coisas que antes pareciam tão banais se fizéssemos, começam a nos incomodar. Começamos então a ver o mundo de uma maneira diferente. Nos incomodamos mais com a injustiça, nos sensibilizamos mais com o sofrimento dos outros, nossas decisões admitem mais renúncias para estar no caminho de Deus, etc. Parece que fica mais claro quando temos remar contra a maré. 

Quem sente isso crescer em sua vida, está certamente tendo uma experiência de Deus. 

Mas ainda não é o fim desta experiência. Quem realmente “mergulha” nesta experiência de Deus logo sente a necessidade de transbordar este amor recebido às outras pessoas. Não conseguimos mais guardar esse tesouro somente para nós. Somos impelidos a começar a contar esta Boa Nova aos outros e a querermos vê-los “mergulhar” também nesta experiência que tivemos e continuamos a ter todos os dias. 

E como manter todo esse fogo aceso dentro de nós por um longo tempo? 

Muitos e muitos encaram esta experiência de Deus como algo emocional e fantástico, mas quando aparece alguma dificuldade, quando algumas pessoas se sentem incomodadas com nossas opções, quando se tem que deixar o que é “gostoso” pela renúncia, por exemplo, de um relacionamento que sabemos que nos afasta de Deus, acabam por desistir. 

É como na parábola do semeador (LC 8, 4-16) onde algumas sementes caem na beira da estrada e são pisadas e as aves do céu comeram, outras nos pedregulhos e tendo nascido secaram por falta de umidade, outras nos espinhos, cresceram mas foram sufocadas por estes espinhos mas algumas caem em terra fértil dando muitos frutos.

 A experiência de Deus é assim. Perseverar depende muito de nós, mas sempre teremos a ajuda de Deus, na vivência dos sacramentos, principalmente a Reconciliação (confissão) e Eucaristia que são essenciais para a manutenção dessa experiência em nós.


Arrisque-se

Janeiro 1, 2008

 Fim de ano e após o Natal eu e a Helô não pudemos viajar e acabamos por ficar em casa só com nosso filho, já que as três meninas foram para a praia.  

Se São Paulo fica uma maravilha com tanta gente fora, minha casa ficou melhor ainda, já que três a menos dá a impressão de estarmos em um mosteiro além de nosso filho sair bastante com a namorada vestibulanda, razão pela qual ele não viajou. Isto inspirou-nos a assistir a missa, a caminhar, rezar o terço, ler a Bíblia, escutar umas palestras que compramos em CD, além de alguns passeios que fizemos sempre juntos (eu e a Helô).

Foram momentos de grande encontro como casal e com Deus. 

Passamos a virada do ano com uns amigos, numa missa do movimento da Aliança da Misericórdia, por sinal uma grande missa, na profundidade e alegria e com certeza na duração, já que chegamos às 23:00 hs e saímos quase às 3:00 hs.

E como não ceiamos na virada, convidamos meu filho e a namorada para almoçarem conosco no dia seguinte. 

No dia primeiro, já na hora do almoço lembramos de perguntar ao meu filho, que ainda dormia, se ia buscar a namorada em casa e ele respondeu que sim, o que significava mais uma hora e pouco de espera para quem nem tinha jantado no dia anterior! 

Finalmente comemos e após o almoço assistimos uns filmes até que e eu e a Helô resolvemos rezar o terço. Já ia me levantando para irmos ao nosso quarto quando a Helô resolveu arriscar-se e convidá-los a rezar o terço conosco e qual não foi minha surpresa ao aceitarem imediatamente o convite.  

Rezamos os quatro juntos e eu senti uma grande alegria por aquele momento. E não parei de pensar no respeito humano que me impediu de arriscar o convite de rezar o terço com meu filho e sua namorada. 

Será que não temos muito respeito humano, como eu tive, que nos impede de avançar na vivência de nossa fé em família e com nossos amigos, namoradas etc. ? 

Pais, vocês rezam com seus filhos? Dão graças a Deus nas refeições?

Filhos, vocês rezam com suas namoradas, namorados? Entregam a Deus seu relacionamento? Seus problemas? Suas dúvidas?

Colegas e amigos vocês já falaram de Deus com quem convive com você a tanto tempo? 

Não tenhamos este respeito humano que nos impede tantas vezes de fazer a diferença na vida das pessoas, ou elas fazerem nas nossas, como ocorreu comigo naquele dia.