Hipótese

Hipótese

 

As pessoas que normalmente tem dificuldades nos relacionamentos e são taxadas de não saberem amar, na maioria das vezes, são pessoas que não foram amadas ou tiveram traumas que as fizeram achar que não merecem ser amadas, daí se fecham para o amor dos outros não correspondendo às iniciativas amorosas, não sabendo como reagir a uma experiência da qual não se acham merecedoras.

 

Tenho conhecido muita gente com este perfil de comportamento e que são julgadas por não saberem amar, quando na realidade, seu maior problema é não saberem ser amadas.

 

É claro que há inúmeros fatores que colaboram para um perfil assim, tais como temperamento, experiências, educação, etc. Também acredito que há um fenômeno social de nossos tempos que reforça demais estes problemas que é o enfraquecimento do é ser homem na família, nos relacionamentos, na sociedade. Há uma crise da masculinidade, da função do homem como pai, como amigo, como companheiro e hoje convivem modelos de tabus enormes e  total “liberdade” e descaracterização das funções masculinas. Este é um assunto para outra discussão, mas que merece uma reflexão.

 

 

Uma boa observação para ajudar a identificar pessoas com estas características é como elas reagem a elogios, a mimos e a presentes. Normalmente são reações de negação, de frieza que acabam ferindo ou frustrando quem recebe o elogio, mas principalmente quem faz.

 

Conheço uma pessoa que é extremamente carinhosa com as pessoas, tem um enorme senso de justiça e dever,  a ponto de se sacrificar para cumprir suas obrigações profissionais, de filha, etc., mas devido à separação dos pais, a um enorme reforço da mãe para que ela nunca dependesse de homem nenhum, essa pessoa tem dificuldades de amar de verdade. Não se deixa conhecer totalmente, não se acha merecedora de um amor verdadeiro. Ultrapassadas as camadas externas de carinho, afabilidade, responsabilidade, justiça há uma barreira quase intransponível para chegar ao seu coração. Isto a frustra, frustra seus relacionamentos, pois há reclamações constantes de falta de correspondência, o que  a faz sentir-se um lixo.

 

Há pessoas que assumem para si a responsabilidade da separação dos pais, culpando-se e punindo-se por algo que não foram efetivamente responsáveis e com o correspondente fechamento para o amor, ou melhor, para ser amada.

 

Toda a sociedade está cheia de exemplos claros e outros mais velados destas pessoas.

 

Outra coisa interessante de se observar é que pessoas em que se destacam virtudes como justiça, temperança, fortaleza, mansidão parecem que são as que ficam mais presas na armadilha de não saberem ser amadas. Parece que quanto mais fortes forem as virtudes, mais estas acabam servindo de compensações a esta falta de amor e menos a pessoa consegue aceitar suas carências, suas mágoas com as pessoas e que, no fundo não foram amadas e não sabem ser amadas.

 

A consciência cristã também não é passaporte para se libertar dessas amarras e barreiras ao amor. Consciência cristã, não é ação da Graça, a ação da Graça tudo pode e faz coisas que eu nem imaginaria se eu não tivesse passado por experiências tão extraordinárias na minha própria vida. Consciência cristã é conhecer Jesus, é saber do seu amor, é conhecer seu sacrifício por nós, mas como citei acima, traumas que tem a ver com a figura masculina tentem a turvar até a imagem que temos de Deus e do próprio Jesus. Ouço sempre frases como: “Deus é perfeito e não faria isso!”. Isto O coloca num lugar distante e muito longe da realidade nossa do dia a dia.

 

Como transpor estas barreiras?

 

É obvio que “Freud explicaria” o caminho e há casos e casos, mas eu acredito que juntamente com um trabalho de conscientização das causas de tais comportamentos, só a experiência do amor verdadeiro pode curar os corações não amados. O difícil é que nos relacionamentos de jovens namorados, normalmente o outro não tem consciência deste processo e naturalmente repele tais reações ou falta delas, desanimando e abandonando o barco no meio do caminho.

 

Num ambiente de comunidade há um grande espaço para isto, pois a vida compartilhada e a ação de Deus criam o cenário “quase” perfeito para que as coisas se encaminhem para a cura. E eu digo quase, pois por mais que nos amemos em comunidade nem sempre deixamos que os outros cheguem às nossas camadas mais profundas. Tendemos a ter grande respeito humano, nos protegemos e às vezes falta justamente o elemento que mais carecemos, que é a esperança que há um caminho diferente, um agir diferente., que há um modelo (por exemplo) de homem que corresponda ao que Deus quer de nós homens, de nossos relacionamentos etc.

 

Em resumo, eu acredito que a Graça de Deus e o amor persistente, compreensivo, intenso podem ajudar os que não foram amados e ainda não sabem como é ser amado.

 

 

 

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