Departamentos

Setembro 24, 2008

 

Hoje nós somos levados a crer que nossa vida pode ser dividida em vários departamentos independentes e que, em cada um deles, temos que ter condutas e preocupações morais diferentes.

 

Quem não ouviu a frase que diz que não se leva problemas do trabalho para casa, ou problemas de casa para o trabalho?  Quem não ouviu a frase que diz: quem não cola não sai da escola? Ou ainda que burro amarrado também pasta? Em todas elas assumimos que somos como uma grande repartição pública onde os departamentos não se comunicam e se você vai ao balcão errado, você simplesmente é encaminhado ao outro departamento, sem nunca haver nenhum sinal de que tudo faz parte de um mesmo organismo.

 

Assim, muitos de nós crêem que trabalho é trabalho, estudo é estudo, relacionamentos amorosos são relacionamentos amorosos, relacionamento familiar é relacionamento familiar e assim por diante, como se as coisas não se comunicassem e como se cada um destes “departamentos” tivessem que ter sua moralidade própria e não se comunicar com os outros departamentos.

 

Um exemplo que ilustra bem isso é a publicidade anti-pirataria de DVDs em que um pai que trouxe um DVD pirata para casa questiona sobre a nota 10 da prova do filho que justifica que simplesmente fez uma cópia pirata da prova do amigo.

 

Este é um exemplo bem simples, mas é a pura realidade de nossos tempos, em que somos forçados a crer que é possível separar as coisas e dar avaliações morais diferentes para cada uma delas. O que é dramático nisso é que todos se lamentam pelo estado em que nossa sociedade se encontra, com egoísmos, desamor, infidelidade etc. mas, não vemos as causas reais de tudo isto nessa departamentalização da vida moderna.

 

Hoje converso com muitos jovens e casais e vejo como isso pode ser destrutivo e como estão cegos sobre o que os pode levar a essa infelicidade que tantos reclamam em suas vidas. Por isso temos tantos em depressão, a doença dos nossos tempos, sem esperança e fazendo roleta russa com suas vidas e seu futuro. É como se não houvesse saída para conseguirmos ser felizes.

 

A primeira coisa a pensar é que há um Deus que está presente em todos os momentos de nossas vidas. É preciso crer que há um Pai amoroso nos olhando e cuidando de nós em todos os “departamentos” de nossas vidas. E da mesma forma que Ele não descansa seu amor por nós em momento algum, se tivermos essa consciência firme dentro de nós, primeiro teremos a certeza que há o que esperar, que há uma meta a atingir e principalmente há um caminho, e só um caminho , para vivermos nossa felicidade e esse caminho é Deus.

 

Toda a mensagem do Evangelho é uma comunicação do amor de Deus por nós e qual é o caminho que devemos seguir, não “nisso” ou “aquilo” de nossas vidas, mas em tudo o que fizermos.

 

Ter esta presença de Deus durante todo o nosso dia é a chave para conseguirmos viver segundo o amor de Deus em tudo.

 

Em nosso acordar, a presença de Deus nos atenta a não enrolarmos mais um pouquinho perdendo a hora para o trabalho ou escola.

 

No trabalho, a determinação por fazê-lo da melhor maneira possível como se o fizéssemos para Deus e não para homens, termos horário para começar e terminar e sempre procurar se aperfeiçoar, também é auxiliado por esta presença de Deus em nosso dia.

 

No estudo, dar o máximo de nós para aprendermos, não relaxarmos na hora de estudar e deixarmos de colar como alternativa à nossa preguiça é ter esta presença de Deus na escola.

 

Em nossa família, mesmo com todas as nossas dificuldades e com as feridas que geralmente temos e que são causadas por nossos pais, irmãos ou parentes próximos, a presença misericordiosa de Deus em todo o nosso dia nos ajuda a superarmos a dor, a termos a disposição de perdoar, a termos força para superar as dores mais difíceis que sentimos e que são as causadas por quem está mais próximo de nós.

 

Em nossos relacionamentos amorosos, a presença de um Deus fiel nos dá a perspectiva de que é possível viver um relacionamento fiel, permeado pelo perdão e cheio de alegria. Deus não “fica” conosco como muitos “ficam” hoje em dia. Deus sabe o nosso nome, Deus nos quer para sempre, Deus cumpre suas promessas, Deus cuida de nós.

 

Se entendermos que nossa vida é única e 24 horas por dia Deus nos olha e derrama seu amor por nós, teremos dado o primeiro passo para transformar nossa vida e assim transformarmos este mundo.


Como saber se “bons” relacionamentos estão em crise?

Setembro 16, 2008

 

 

Muita gente, hoje em dia, afirma que tem um bom relacionamento, mas parece que há uma constante crise entre os dois. E uma das grandes percepções destes casais é que há um descompasso entre o que um entende como seria o relacionamento ideal e o que o outro pensa do mesmo assunto. Para uns há a sensação de estar “mais apaixonado” que o outro; para outros estar juntos significa brigar, brigar e brigar e por fim alguns se acostumaram com o ficar com o outro, sem na verdade estar totalmente envolvido com a pessoa do outro.

 

Eu proponho aqui não uma solução, mas uma reflexão sobre como avaliar a situação respondendo quatro perguntas:

 

  1. Como eu me vejo hoje?

 

Num relacionamento, o bem mais precioso que eu tenho para entregar à pessoa amada, o que se iguala em dignidade ao outro, sou eu mesmo. O amor é um dom de si ao outro. Se eu tenho uma imagem negativa de mim mesmo, o que eu me proponho a dar ao outro, lixo?

 

As pessoas que não se valorizam, tem sempre uma enorme dificuldade nos seus relacionamentos, pois se sentem sempre “devedoras” do outro, desequilibrando a relação, que para dar certo tem que ser equilibrada. É preciso rever profundamente o que pensamos de nós mesmos, que valor nos damos e que talentos nós temos para dar.

 

Uma pequena auto-estima pode resultar em “suportar” qualquer coisas do outro sem expor seus sentimentos, suas necessidades e seus sonhos, havendo não uma renúncia por amor, mas uma anulação de si mesmo, tornando a relação viciada e não ajudando o outro a ser melhor.

 

Outra conseqüência de uma baixa auto-estima é um ciúme exagerado, onde qualquer um é uma ameaça, pois todos são melhores que a pessoa que não se valoriza e potencialmente pode lhe  “roubar” a pessoa amada.

 

Vencer nossa auto-imagem negativa, nossas inseguranças e principalmente nossos traumas não é uma tarefa fácil, mas é muito necessária se queremos ter relacionamentos equilibrados e preparados para dar certo.

 

 2.    Quanto eu estou disposto a lutar contra meus defeitos por amor do outro?

 

“Eu sou assim e pronto!”

 

Esta é uma frase que serviria muito bem para ser o epitáfio (1 Inscrição num túmulo. 2 Breve elogio a um morto.) de um relacionamento, pois lutar com nossas imperfeições é um dever para toda a nossa vida se queremos ter um relacionamento duradouro.

 

Se engana quem pensa que durante toda a nossa vida não vamos magoar o outro, não vamos ferir seus sentimentos, não vamos irritá-lo com nossa maneira de ser. É impossível ser a pessoa ideal todos os dias. Nossa vida é dinâmica, nossos defeitos também e lutar contra eles é uma tarefa sem fim. O relacionamento nos coloca diante de nossos defeitos porque o outro reage diante deles e vemos o quanto precisamos  “domá-los” para evitarmos ferir o outro, magoá-lo e fazê-lo sofrer.

 

Quais são os nossos defeitos de estimação?

 

Todos nós temos características de temperamento como ser mais extrovertido ou mais introvertido, ser mais organizado ou desorganizado, mais atento aos detalhes ou muito pouco atendo às coisas pequenas. Como eu luto com estas características para ser melhor para o outro?

 

Cuidado com a idéia de que não se pode se anular para atender às necessidades do outro, isso é parcialmente verdade como dissemos na primeira pergunta, mas vencer nossas imperfeições e trabalhar nossas virtudes é um dever individual que afeta todas as áreas de nossas vidas.

 

3.     Quanto eu estou disposto a aceitar os defeitos do outro por amor ao outro?

 

Um padre me disse que nosso amor será perfeito quando começarmos a amar os defeitos da pessoa amada. Com certeza é um objetivo alto, mas em nossos relacionamentos, estamos dispostos a relevar os pequenos defeitos do outro?

A velha frase de que quando casar se muda a pessoa do jeito que quisermos é uma enorme bobagem em termos de relacionamento. Temos que querer estar com o outro como ele é, aceitando suas qualidades e seus defeitos.

 

Mas não podemos ajudá-lo a melhorar?

 

Sim, é claro, mas não podemos usar este argumento como arma de intolerância. É preciso discernir e muitas vezes renunciar.

 

Imagine um casal onde um é ultra organizado e gosta de tudo nos mínimos detalhes e o outro é absolutamente bagunceiro. Durante o namoro é uma maravilha, pois achamos até engraçado a diferença, mas quando temos que conviver com esta diferença 24 horas por dia isto pode se tornar uma bola de neve se não estivermos dispostos a entender e aceitar o outro como ele é e não só como desejaríamos que ele fosse.

 

Se estamos sempre reclamando das características do outro é um mau sinal. Ou somos intolerantes ou estamos com a pessoa errada. Qual é o seu caso?

 

4.  Como eu imagino que o outro responderia às perguntas anteriores?

 

Esta não é uma pergunta para questionar o outro sobre suas respostas, mas para que cada um avalie se, com as diferenças que imaginamos nas respostas do outro, vale a pena lutar pelo relacionamento ou temos que fazer um bem para os dois partindo para outra (para namorados e noivos).

 

Como se pode ver, este é um texto de avaliação pessoal, não do outro, e assim deve ser o nosso amor, pensarmos em sermos melhores para o outro, a nossa parte é problema do outro. Se conseguirmos pensar assim, estamos no caminho certo do que é viver o amor.