Durante as fases da vida de cada casal tem-se sempre a perspectiva do eu, do nós e do nosso e a maneira como cada casal consegue lidar com estas perspectivas durante a vida, reflete como se vive e como o casal se realiza com o passar do tempo.
O eu
A busca por uma pessoa para se relacionar é sempre influenciada pela imagem que se tem de si mesmo, e problemas em saber e valorizar quem se é, podem distorcer muito as escolhas que cada um faz.
Imagine uma pessoa com uma idéia negativa de si mesma, por exemplo, na beleza. Alguém que sempre se ache feia, gorda, magra, baixa, alta, branca demais, morena demais, com cabelo ruim, com marcas de espinhas etc., sua escolha pode ir no sentido de buscar alguém “não tão bonito” pois ninguém muito bonito olharia para alguém com esta feiúra tão evidente.
Noutro exemplo, uma pessoa insegura, pode buscar alguém que seja, a seu ver, super seguro e esta segurança pode ser a maior razão do seu encanto pelo outro, já que sua insegurança tem um peso muito grande em sua vida.
E num último exemplo, alguém que se ache burro, pode querer alguém super inteligente e admirá-lo demais por isso, como se isso preenchesse esta sua imagem de falta de inteligência.
Todos estes exemplos são relativamente fáceis de entender e também é fácil admitir que sempre há uma busca, no outro, do que não se tem ou não se vê com grande valor em si mesmo.
Se esta auto-imagem for muito negativa, a admiração pelo outro pode ser distorcida e em outro momento da vida pode ter uma consequência dolorida e difícil de lidar. Uma auto estima baixa pode levar a dois efeitos na escolha de uma outra pessoa, ou o efeito limitante, no qual eu escolho alguém não tão bom como poderia por não acreditar no meu próprio valor; ou o efeito compensador, no qual eu procuro no outro a compensação do eu acho que não tenho.
Imagine o caso acima da pessoa insegura. Ao invés de procurar entender a sua insegurança, aprender a lidar com ela, deixa isto de lado se apoiando na segurança do outro. Isto faz com que a segurança, que é um valor, acabe por ser super valorizada e isto pode fazer a pessoa não perceber alguns defeitos no outro.
Explico melhor: As escolhas são sempre feitas a partir de um balanço de virtudes e defeitos do outro e naturalmente opta-se por quem tiver mais virtudes do que defeitos. Se for dado um peso muito grande a uma virtude, peso este que na realidade é uma carência de um e não a grandeza da virtude do outro, a escolha por esta pessoa pode ser errada e um dia quando se descobre as razões desta insegurança e se dá a devida medida à segurança do outro vê-se que havia defeitos que não foram considerados e deveriam ter sido e muitas vezes isto é descoberto tarde demais.
Portanto temos que entender que o outro não pode ser a parte que nos falta. Precisamos nos conhecer bem, saber lidar com a imagem que temos de nós mesmos para podermos partir para um nós equilibrado e duradouro.
O significado de Deus na vida de cada um é importantíssimo no conhecimento de si mesmo. Alguém que entende santidade como a busca de um ideal de vida e não como a perfeição aqui na terra, aceita melhor suas limitações, mas não descansa nesta busca, não importando quantas quedas aconteçam na sua caminhada.
Alguém que entende que foi feito a imagem e semelhança de Deus e que foi criado para ser objeto do amor de Deus, sabe bem o valor e a dignidade que tem e isto é muito bom para se encarar um relacionamento equilibrado.
Deus nos fez e é um grande aliado na construção do nosso eu.
O nós
O nós aqui se identifica com o outro, pois o nós se dá a partir da entrega de si ao outro. Pelo doar-se para fazer o outro feliz.
E reforço o que disse acima:
-Quem se acha lixo, acaba por buscar quem o aceite como lixo ou, caso o outro não o veja como este lixo que se imagina, a entrega será sempre desequilibrada, causando, mais cedo ou mais tarde, frustração e sofrimento.
-É preciso entender a dimensão do seu próprio eu para que o nós seja verdadeiro e estável.
O namoro e noivado são as fases naturais de colocar virtudes e defeitos do outro na balança. Quase sempre também é uma fase de conhecimento do próprio eu. Esta caminhada é justamente para que um e outro se conheçam, para que conheçam as suas reações e as do outro nas várias situações que a vida apresenta e que este conhecimento leve ambos a uma decisão comum pelo nós.
A construção do nós passa por um alinhamento de expectativas sobre a vida, sobre as carreiras profissionais, sobre a futura família, sobre os parentes próximos, sobre como enfrentar as coisas que são imprevisíveis como doenças, perdas, necessidades etc. e que tipo de renúncias cada um está disposto a fazer por este nós.
O nós é uma escolha e toda escolha faz com que se deixe de lado outras pessoas, outras realizações, outros caminhos. Por exemplo, ambos podem ser profissionais com carreiras promissoras pela frente, mas por uma oportunidade de um dos dois, pode ser possível que o outro tenha que abrir mão da ascensão profissional dos seus sonhos. Você estaria disposto a fazer esta renúncia pelo nós?
O nós, como doação ao outro sempre implicará em renúncias: Ao orgulho, para que se peça e se dê o perdão sempre que for necessário. À impaciência, quando o outro não reagir às situações com a velocidade que se espera. Ao egoísmo, quando deixarmos de lado nossas vontades para fazer as do outro.
Tudo isto não quer dizer que o nós signifique anulação de si mesmo, pelo contrário, se eu me anulo, não tenho o que dar ao outro a não ser um nada. É preciso ter consciência e se tomar uma decisão sobre o que renunciar e para que renunciar.
O nosso
O nosso é algo que vem em decorrência do nós. E eu acredito que deveria sempre seguir esta ordem: O eu, o nós e o nosso.
O nosso é algo que se conquista juntos. Os nossos filhos, nossa casa e nossos bens.
Quando se fala em nossa casa é fácil pensar que duas pessoas se unem para comprar um imóvel ou mesmo alugar um. É fácil pensar que cada um fará a sua parte para que isto seja possível. Se um mês o dinheiro apertar, é fácil pensar que este será um problema nosso, pois a casa é de ambos.
Mas é comum isto não acontecer assim e a razão é que se entrou num nosso sem se ter construído um nós. Daí decorrem os problemas que um gasta mais do que deveria, só pensando em si mesmo, e há um desentendimento constante neste ponto de finanças.
Hoje é comum escutarmos casais que não casam sem antes terem comprado todos os bens, casa, moveis, eletromésticos, etc. e quando finalmente se casam, o casamento não dura nada, pois eles partiram para o nosso antes de fortalecer, ou mesmo existir, o nós.
Sempre que se começa a usar expressões como “Sua família.”, “Seus filhos.”, “Sua casa.” É um sinal de um nós enfraquecido ou mal construído.
O nosso sempre tende a tirar um pouco o foco que um tem pelo outro, desviando-o para o objeto do que é nosso.
Os filhos são o caso mais evidente disto, mas o trabalho e os bens também fazem isto.
No namoro, noivado, casamento e até o nascimento do primeiro filho, um está quase totalmente voltado para o outro. O nós é vivido com a atenção quase exclusiva ao outro. Eu digo quase, pois a “nossa” casa e os “nossos” bens podem nos dividir um pouco, pois pode-se começar a fazer hora extra para conseguir pagar as prestações que ficaram maiores que o salário, sobrando menos tempo de um para o outro.
Mas, em se tratando de pessoas, um é praticamente exclusivo do outro e vice-versa até o primeiro filho.
Os filhos marcam um momento em que esta atenção começa a ser dividida. O nosso começa a ter um peso grande na vida dos dois. Os filhos são uma grande realização do nós de um casal, os filhos são uma grande graça de Deus na vida do casal, mas tomam um grande espaço na vida de um e outro.
É uma fase em que cuidar do nós é essencial, pois o tempo para o nós tende a ser muito dividido com o tempo para o nosso.
A maternidade é a plenitude da mulher, se bem que a paternidade é de suma importância para o homem e mais ainda para os filhos; o trabalho pode ser encarado como a plenitude do homem, mesmo as mulheres tendo avançado tanto nesta área também. Mas há um erro comum quando se cuida do nosso: quando isto resulta em descuido do nós, então, a mãe é mãe 24 horas e o pai é provedor 24 horas e o nós vai se enfraquecendo sem que se perceba disto.
Este processo de enfraquecimento do nós, quando estamos cuidando do nosso, é perverso porque não nos damos conta, pois temos a impressão que estamos fazendo tudo certo e conjuntamente, mas quantas vezes eu já ouvi homens que estão em vias de romperem seus casamentos dizerem: “Mas eu sempre me matei para colocar dinheiro em casa!” e não percebem que cuidaram do nosso, mas esqueceram do nós.
Uma boa disciplina dos filhos e a ajuda do pai na sua educação é muito importante para sobrar tempo do casal para o cuidado do nós.
É claro que toda esta divisão é natural e todos passam por isso, mas quase ninguém se dá conta do esvaziamento do nós pelos pequenos descuidos durante esta fase da vida.
Chega um momento em que os filhos crescem e deixam de exigir tanto da mãe e do pai, há também uma certa estabilidade na conquista dos bens que fazem parte do nosso e nesta hora é comum que ambos voltem a olhar para si e busquem saber novamente quem sou eu e o quanto do nós resistiu ao tempo. Esta é uma hora difícil e de muitas descobertas para ambos.
Redescobrir o meu eu é importante porque nós mudamos durante nossa vida e nem adianta pensar em um nós se nem sabemos mais que tipo de eu, eu tenho para entregar ao outro. Quem era eu quando escolhi o outro? Quem sou eu e quem vejo no outro agora?
É um recomeço ou um fim.
E infelizmente, para muitos, tem sido um fim. Os descuidos foram tantos que o nosso se tornou o único ponto em comum, mas os filhos assumiram suas vidas e se foram, os bens são suficientes e podem ser facilmente divididos e o nós não existe mais.
Esta é a hora que se tem que lutar para voltar ao início desta reflexão para que o caminho dos dois permaneça o mesmo, num novo momento de um nós seguro e duradouro.