Marta e Maria

26 de abril de 2012

 

Eu estava lendo alguma coisa de Deus antes de começar a trabalhar e resolvi ler a catequese do Papa Bento XVI desta última quarta-feira. (http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=285991)

Lá Bento XVI fala da aparente contraposição entre a oração e a ação. E cita o famoso episódio bíblico onde duas irmãs recepcionavam Jesus em sua casa e uma cuidava dos afazeres da casa, Marta, enquanto a outra, Maria, ficou escutando Jesus falar das coisas do Pai.

Vale a pena ler a reflexão do Papa.  

Mas lendo esta catequese, eu fiquei pensando se no relacionamento de casal isso fazia sentido.

Eu sempre penso no amor humano como um amor  imagem e semelhança do amor de Deus e por isso, tento tirar alguma coisa do nosso aprendizado de relacionamento com Deus, para o relacionamento humano também.

No matrimônio há muitas preocupações com finanças do casal, com administração da casa, com a necessidade dos filhos e quando eu pensei nisso vi o quando nós nos deixamos ser Marta e descuidamos da parte mais importante que é o amor e o diálogo do casal. O maior investimento que o casal faz para o futuro é viver o amor do presente intensamente.

“Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas com tantas coisas, mas de uma coisa só tens necessidade, Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Luc 10,41-42)

Um casal cristão tem que ter fé na providência de Deus, pois ele prometeu que cuidaria de nós e o casal tem que cuidar mais das coisas mais importantes:  alimentar seu amor para mantê-lo vivo.

Uma vez em um curso sobre educação de filhos, um pai de muitos filhos, justificou sua constante ausência de casa e consequente ausência na educação dos filhos, devido à necessidade de trabalhar para manter o padrão de vida da família. Ele estava sendo Marta e deixando as coisas mais importantes para segundo plano .

Há mulheres que, por mais boa vontade que tenham em deixar a casa em ordem, preparar o jantar do esposo, cuidar de tudo dos filhos, nunca tem tempo para dar-se ao esposo. Dar seu tempo, escutá-lo, tentar entendê-lo, construir e viver a intimidade do casal em sua plenitude. É o caso da mulher tão prestativa e cuidadora que depois do primeiro filho nem sobra tempo para fazer o segundo.

E eu creio que tem muita gente que pensa sinceramente que isto é o certo, como a Marta do evangelho fez, mas é preciso abrir os olhos. É preciso saber balancear as duas coisas. E quem ler atentamente a reflexão do Papa verá que os apóstolos perceberam que para cuidar do dia a dia da comunidade era preciso eleger outras pessoas para o serviço, enquanto eles cuidariam da palavra de Deus. Os escolhidos foram ungidos, pois toda ação tem que ser um transbordamento do amor, ou seja, primeiro vem o amor, e este amor dará sentido à ação, à caridade.

Do mesmo modo, não adianta termos mil preocupações com as tarefas e responsabilidades da família se nos esquecemos do que une a família, do que dá sentido à família, do que é a base da existência  familiar que é o amor do casal, reflexo do amor de Deus.

Sempre seremos um pouco de Marta em nossa vida de casal. Mas quantas vezes não estamos esquecendo de ser Maria e prestar atenção naquilo que realmente importa?


Escutar

13 de abril de 2012

 

Durante muitos anos eu e minha esposa trabalhamos em um encontro de casais que visava principalmente o diálogo do casal e uma das coisas que mais me marcaram nestes encontros era a palestra cujo tema era: “Escutar, a chave da comunicação”.

Nela se falava da diferença entre simplesmente ouvir ou escutar com o coração e com o entendimento, e se explicava como há distâncias enormes nisso (simplesmente ouvir ou escutar).

Antes de falar mais do escutar, vou dizer da necessidade que todos temos de sermos escutados. A Bíblia diz que quem tem um amigo tem um tesouro.

Eclo 6,14

Amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro. Ao amigo fiel não há nada que se compare, pois nada equivale ao bem que ele é. Amigo fiel é bálsamo de vida; os que temem o Senhor vão encontrá-lo.

Uma das características de um bom amigo é saber escutar. E todos nós precisamos de alguém que nos escute. Que não nos julgue pelos nossos pensamentos, pelas nossas falhas. Que tenha a liberdade de nos corrigir quando for necessário. Que esteja disposto a dividir nossos momentos bons e os ruins também.

Que bem faz poder desabafar! Poder estar diante de alguém e poder sorrir ou chorar, ficar feliz ou ter raiva, ir mais longe do que se vai com todos os outros.

Que momento precioso quando nos despimos de tudo quanto nos aprisiona em nossos papeis do dia a dia e podermos finalmente ser nós mesmos ao lado de alguém!

Isto é algo que não é fácil conseguir e quem consegue o tem como dom preciosíssimo.

Mas, voltando ao escutar, se nós queremos escutar alguém de coração o primeiro passo é dar atenção exclusiva à pessoa. Se o marido chega em casa louco para desabafar sobre seu dia e a esposa mal se vira para cumprimentá-lo, continuando seus afazeres na cozinha, está dizendo indiretamente ao marido que não o quer escutar. Da mesma forma o marido que, ao chegar em casa, se joga no sofá e fica de olho nos jornais da TV sem ao menos olhar no rosto da esposa enqunto ela conta do seu dia a dia, cria uma barreira para o diálogo, cria uma barreira para o escutar o outro.

Escutar é um ato que exige dedicação exclusiva. Exige contato visual e se possível físico também, como dar-se as mãos. Ao escutar alguém, é preciso dar um retorno com gestos de aprovação, um carinho ou mesmo um “hãhã”. Mais do que o assunto em sí, escutar é dizer ao outro que ele importa para você.

Em uma casa com filhos, o momento do diálogo não deve ser à mesa com todos presentes, é preciso um ambiente que favoreça a abertura de um e a escuta do outro.

Com amizades ocorre a mesma coisa. Há momentos e locais certos para o escutar verdadeiramente o outro.

Todo o diálogo é um ato bidirecional. Há dias em que um fala e o outro escuta, mas o inverso deve ocorrer também, mesmo que seja em outra oportunidade.

Hoje vivemos num mundo da comunicação e não nos faltam meios para falarmos com alguém e isto é bom, só não podemos deixar que esta exuberância de meios de comunicação diminua nossa atenção à pessoa do outro. Imaginem a cena que falei acima, do marido assistindo jornal enquanto a esposa reporta o seu dia, num certo momento ela para e pergunta:

“Você está prestando atenção no que eu estou dizendo?”  e ele simplesmente clica no “curtir” e continua a ver os jornais.

Não dá para ser assim!

Um E-Mail, um SMS, ou até um “curtir” no Facebook podem ser uma forma de dizer que se precisa falar ou ser escutado, mas não devem substituir o diálogo ao vivo.

Profissionalmente já é difícil quando mandamos um E-Mail e não somos respondidos, particularmente isso é um grande fechar de portas.

Na minha infância, minha avó me mostrava algumas cartas que ela trocava com meu avô durante seu namoro e além da maneira formal de um se dirigir ao outro, típica do começo do século 20, havia um abrir-se, um colocar-se ao outro que era tão bonito, e para falar a verdade, com um charme muito especial nas cartas com monogramas dos nomes de cada um.

Colocar no papel coisas de dentro de você é tão bom, é tão pessoal, é tão mais difícil de se dar um delete ou não prestar atenção. É algo mais perene, algo que fica de nós mesmos e como isto apavora tanta gente. Gente que tem medo. Medo da vida, medo das decisões, medo de ter que se confrontar com algo que muda com o tempo.

Quem sabe escutar presta atenção no outro, importa-se com o outro, com a mensagem que talvez nem seja o tema principal do diálogo. Quem sabe escutar procura entender o idioma do outro.

Cada um tem uma maneira própria de se comunicar. Uns são mais diretos e objetivos, outros tem mais dificuldades de se comunicar, sobre seus sentimentos e sobretudo suas fraquezas. Mas o diálogo exige de nós sabermos escutar o outro no seu idioma.

Não use a desculpa que para você é difícil, e portanto, calar-se é melhor.

Escutar, dialogar, prestar atenção no outro fazem parte do amor e para vivê-lo de forma completa é preciso não deixar isto de lado, jamais.


Primeiro se separe da sua mãe…

1 de março de 2012

 

Quando eu era criança costumava sair do colégio e ir para o Forum de Santos, onde meu pai trabalhava, e ficava por lá para voltarmos juntos para casa.

Naquela época não havia divórcio no Brasil e as separações eram auxiliadas pelo pessoal que fazia assistência judiciária no Forum. Meu pai, muitas vezes, era chamado a substituir algum dos procuradores que faziam isto e, enquanto ele conversava com as pessoas que buscavam a separação, eu ficava numa mesa atrás dele escutando e brincando numa máquina de escrever.

Eu me lembro bem quantas vezes ele escutava as razões dos reclamantes para se separar, reclamantes que quase sempre estavam acompanhados ou acompanhadas de suas mães e ao final de uma explicação cheia de mágoa e até raiva ele perguntava se a pessoa morava com a mãe. Ao receber uma resposta positiva ele terminava com a seguinte frase: “Primeiro se separe de sua mãe, espere 6 meses e depois volte aqui.”

Eu achava engraçado aquilo e não fazia ideia da sabedoria que estava por trás daquele conselho.

Quatro décadas depois…

Um dos pontos que mais gera problemas nos casais ainda é a influência que os pais dela ou dele exercem na vida dos dois. E pode parecer piada, mas isto tem destruído muitos casamentos.

Muitos pais não estão conscientes que os filhos não são sua propriedade e tem uma enorme dificuldade de deixá-los viver suas vidas como adultos.

Por sua vez, muitos filhos não estão maduros o suficiente para assumir sua própria vida orbitando no papai ou na mamãe mesmo depois de casados.

Seria bom que os noivos se preparassem melhor para não ter que descobrir as coisas só depois de casados.

Por melhores que nós, os pais, sejamos, nossos filhos precisam assumir suas vidas, enfrentar suas dificuldades e decidir sobre sua maneira de viver seu casamento.

Cada um dos cônjuges vem de uma família diferente, com educação diferente e uma história diferente do outro. A nova família não será nem espelho da família do esposo nem espelho da família da esposa, mas tem que ter sua identidade própria. Mesmo que assumamos as coisas boas que aprendemos de uma e de outra família.

Minha esposa, a Helô, sempre fala que os casais, desde o namoro, tem que ir construindo uma cerquinha em volta de suas casas para que os pais saibam que dali para dentro tem que se pedir licença para entrar.

Filhos, nada de mamães com a chave de suas casas!

Outro conselho que ela sempre dá é que o casal more numa distância dos pais não tão perto para eles irem de Havaianas, nem tão longe para irem de malas. Evitando assim intromissões na vida do casal.

Visitar os pais é algo bom e desejável, mas se tiver que ser todos os dias é para se preocupar.

Se você não consegue deixar sua casa do seu gosto, com aquela parede da cor que você quer, porque a “mamãe” não gostou, cuidado!

Comecem hoje discutir sobre dias de festa como Natal, Páscoa, etc. Cheguem num acordo sobre como conciliar a relação com as famílias dos dois.

Eu já vi um casal que antecipou a volta da  lua de mel porque a moça estava com saudades da mãe e não bastaram todos os telefonemas dos dias que estiveram viajando.

Seus pais não tem influência na vida de vocês? Ótimo. E na educação dos seus filhos?

Bom, isso é um outro assunto, até mais.


Espaços

29 de novembro de 2011

 

Tenho comigo que nosso coração não se dá bem com o vácuo, ou seja, não consegue ficar vazio e se há uma chance que isso aconteça tentamos preenchê-lo com algo que diminua esta a sensação dolorosa.

Se nos falta amor, tratamos de achar uma compensação na diversão, no trabalho, onde somos reconhecidos pelo que fazemos, na bebida, no prazer e em qualquer coisa que nos faça, mesmo que enganosamente, nos sentir melhor. Só que as compensações não preenchem os vazios do coração. Talvez nos anestesiem para a dor do vazio, mas não são suficientes para afastá-la e é por isso que normalmente as compensações nos colocam num círculo vicioso que é tão difícil de sair.

Acho que todos concordam, pelo menos em parte, com isso. Mas o difícil de reconhecer é quando nós somos os causadores do vazio no coração dos outros e, nestes casos, ainda reclamamos do afastamento destas pessoas de perto de nós.

Se nós somos pais e nossos filhos fazem questão de estar longe de onde nós estamos, é porque estamos causando um vazio no coração deles, que buscam no mundo, na música, na bebida, no sexo, nas amizades e até num relacionamento errado a compensação do amor que não estamos sabendo dar a eles.  Já testemunhei inúmeros relacionamentos e até casamentos de filhos que queriam chamar a atenção dos pais, ou escolhendo alguém que os pais reprovavam, causando-lhes dor e preocupação ou até casando com pessoas que os pais escolheriam, no sentido de receber uma aprovação dos pais. Em ambos os casos são inúmeros os exemplos que conheço de casamentos que não duraram alguns anos sequer. Pois nem a agressão, nem a escolha para agradar podem tirar o vazio que se tem com relação ao amor dos pais.

Somos ausentes, somos excessivamente rigorosos, somos excessivamente moles (e acho que este é o maior mal dos pais de hoje), se não dizemos que os amamos, se só criticamos, se os sentenciamos com um: “você não tem jeito mesmo!”, causamos um grande vazio nos seus corações e não adianta olhar para eles e perguntar o que há de errado com eles, mas é melhor olhar para si e pensar no que estamos falhando como pais que deveriam amar e não estão conseguindo.

Já vi sacerdotes reclamarem e se sentirem ameaçados por “um concorrente” e começarem a criticar e botar defeito em outro sacerdote, na outra paróquia ou no outro movimento e não é difícil que os seus fiéis debandem quando sentirem que o amor que deveriam receber de seu pastor está ausente. É um caso de vazio e, de novo, a pergunta a ser feita seria:  “No que eu estou falhando como pastor?”  “No que eu poderia amar mais, como Jesus amou as suas ovelhas?” “ O que meus fiéis estão buscando longe de mim que não estou conseguindo dar?”  Esta é uma situação que eu já testemunhei inúmeras vezes e certamente testemunharei de novo, pois como homens, sacerdotes precisam ser amados, mas precisam saber amar também.

Nos relacionamentos isso também acontece e, cada vez mais, vemos casos de pessoas que se separam depois de uma longa convivência sem se dar conta que tudo teve início no “se acostumar” com o vazio, vazio causado e vazio recebido.  O grande engano é que os corações jamais se “acostumam” com o vazio. Os corações querem receber amor e amor pode estimular carinho, mas não é carinho, amor pode gerar filhos, mas os filhos não são o amor em si, amor pode fazer-nos cuidar do outro, mas o cuidado não é o amor, o amor pode escrever uma história, mas a história não é o amor.

O amor é algo diário, como nossa respiração, não adianta lembrar do ar puro que respiramos nas montanhas para podermos parar de respirar hoje, não adianta pensar no quanto já respiramos durante todos estes anos para poder parar de respirar, não podemos. Amar é algo que temos que fazer todos os dias, sob pena dele morrer, como morreríamos se parássemos de respirar. E se não amamos, causamos o vazio no outro e o outro vai buscar sua compensação, admitamos ou não.

Já ouvi testemunhos de pessoas que depois de longos anos de separação começaram a admitir que fariam tantas coisas de maneira diferente e em vários casos, depois que o parceiro morreu, neste caso fica só a intenção. Reconhecer o vazio que causamos não é fácil, causa dor, mas é um santo remédio, inclusive para o nosso coração. Mas é preciso que façamos isso! Enquanto estamos vivos, enquanto nosso amor está vivo.

Por fim, quero dizer que só um amor pode nos preencher verdadeiramente: o amor de Deus. Mas o amor de Deus vem até nós através do amor de homens e é no relacionamento com pessoas que se alimentam no amor de Deus que experimentamos a plenitude em nossos corações. Pais, sacerdotes, amigos, cônjuges, todos nós temos que ser canais do amor de Deus ao outro para podermos preencher e sermos preenchidos verdadeiramente.


Eu sei o que você está pensando!

26 de setembro de 2011

 

Nossa comunicação humana é fantástica, pois envolve não só palavras, mas também gestos, entonação, expressões e essa riqueza de acessórios pode nos levar a um falso entendimento do outro em várias situações.

Se eu falo que amo alguém, mas minha expressão continua a mesma enquanto falo, sem sorrir ou estender a mão para o outro, a chance de, mesmo sendo a mais pura verdade, esta declaração não ser interpretada como verdadeira é bem grande.

Quanto mais conhecemos o outro, mais seremos capazes de “ler” suas expressões e com isso também seremos capazes de fazer maiores enganos quanto ao que o outro quer dizer. Por isso que amigos podem se machucar profundamente, casais tem uma chance enorme de se ferir ou mesmo familiares também tem esta possibilidade. Todos nos conhecem muito bem.

E então é melhor não se conhecer bem?

É claro que não. Este conhecimento e esta “leitura” da comunicação não verbal do outro é boa e importante, pois há o outro lado da moeda, quando basta um pequeno gesto para sabermos que o outro está feliz, ou que está apaixonado, ou que está em paz.

O que não podemos é nos fiar totalmente nesta “leitura” do outro, pois o que vai dentro do outro nós jamais poderemos saber a não ser que o outro fale para nós. Por exemplo, tem situações em que uma palavra, um gesto ou uma ocasião particular disparam em nós lembranças que, se forem boas, podem refletir uma alegria ou expressão de prazer, por outro lado, podem nos lembrar de coisas que machucam e isso, com certeza, terá reflexo nas expressões, o que pode não ter a ver com seu interlocutor, mas causar-lhe uma falsa interpretação de não aceitação.

Você já ouviu a expressão: “Eu sei exatamente o que você está pensando!” ou ainda “Eu pensei que você estava pensando isso de mim!” ou “Não precisa dizer nada, pois eu conheço esta cara!”. Todas são frutos de uma “leitura” do outro e isso é um perigo, principalmente quando as coisas não estão bem ou quando deixamos muitas coisas acumularem e então decidimos nos manifestar ao outro.

Descubram o idioma do outro. Muitas vezes “lemos” o outro pela forma como nós pensamos, pela forma como nós reagimos e não pela forma que o outro é e isso  sempre leva a desencontros.

É preciso dialogar. Não há outro caminho a não ser falar e escutar, ou seja, dialogar. Mas como?

Uma boa regra para o diálogo é dizer, inicialmente, somente sobre seus sentimentos. Não importa a intenção do outro, se falamos sobre nossos sentimentos o outro poderá compreender o que sua atitude causou em nós.

E o que são os sentimentos?

Sentimentos são manifestações espontâneas que temos a partir de estímulos externos. Se você está bravo ou brava e a outra pessoa sorri, isto causa uma grande indignação, talvez raiva, insegurança.

Se você escuta uma declaração de amor você fica feliz. Se seu marido chega tarde sem avisar, você se sente com medo pela violência de nossos dias. Etc.

Alegria, tristeza, medo, angústia, insegurança, são sentimentos que brotam em nós independentemente de nossa vontade. Há um estimulo e nós sentimos, só isso.

Por isso sentir não é bom nem mal. O que fazemos a partir do sentimento é que tem moral. Se, ao ficar com medo pelo marido chegar tarde sem avisar, a esposa desatar uma bronca sem limites, aí entra o erro. Se, ao ser fechado no trânsito e sentirmos uma tremenda raiva, formos atrás do infrator para “devolver a gentileza” aí estamos errados.

Então, manifestar o que sentimos é a chave do diálogo. E para facilitar identificar algo como sentimento é só usar a seguinte regra:

“Sinto-me feliz.”  Manifesta um sentimento.

“Sinto que você não me quer”. Manifesta um pensamento ou julgamento, pois dá para substituir o “sinto que” por “penso que”, “julgo que”.

Outra boa dica para o diálogo, principalmente quando parece que não acertamos na “leitura” do outro é escrever nossos sentimentos. É um exercício difícil para alguns, mas vale à pena tentar, pois quando escrevemos, não estamos olhando as expressões do outro e não corremos o risco de nos influenciarmos por isso.

O bom é levantar um tema e os dois escreverem por uns 10 minutos separados e depois cada um lê o que o outro escreveu e então partem para o diálogo. Leia duas vezes, se coloque no lugar do outro e então partam para o diálogo.

Tema: “Você chegar tarde sem me avisar.”

“Meu amor, sinto-me preocupada sem saber se houve alguma coisa com você. Fico vendo o jornal na TV e com tantas notícias de assaltos e assassinatos e fico angustiada..”

Durante o diálogo, não fujam do assunto principal e procurem terminar em 10, no máximo, 20 minutos.

Dialogar é sempre a saída para quem não quer desistir do outro. Dialoguem sempre.


Se beber, não case!

16 de setembro de 2011

Este é o título de um filme recente que me veio na cabeça quando pensei em escrever sobre a tomada de decisão de casar.

Em todos os cursos de noivos que eu e a Helô participamos, além de tentar passar o máximo de nossa experiência para que aquelas poucas horas ajudem os noivos se prepararem melhor para o casamento, eu sempre tenho o momento de “advogado do diabo” dizendo aos noivos que se eles têm alguma dúvida quanto à decisão de casar, por menor que seja, ainda há tempo, e é bem melhor terminar um noivado do que um casamento.

E por que eu faço isto?

Por que há inúmeras razões, descuidos ou mesmo forças externas que nos levam a tomar a decisão errada e o custo da tentativa e erro num casamento é altíssimo: emocionalmente para o casal, pior ainda se houver filhos e, é claro, nós cremos no matrimônio como um sacramento indissolúvel e, mesmo podendo ser declarado nulo pela Igreja em certos casos, isso não é fácil nem tampouco indolor.

E quais são as principais coisas a se olhar para dar uma avaliada na sua decisão?

Primeiramente é preciso consultar seu coração e responder honestamente: Você tem certeza que esta é a pessoa da sua vida? Que você está disposto (a) a enfrentar as dificuldades e amar mesmo nos dias em que você não gostar dela ou dele? (A pergunta não é se a pessoa não tem defeitos ou se você tem certeza do futuro que ninguém conhece, mas sim sobre o seu coração hoje!)

Se você titubear nesta resposta, por um pouquinho que seja… Não case!

Há tantas pressões internas e externas agindo em nós que, às vezes, nos iludimos ou ficamos cegos quanto à pessoa com quem estamos nos unindo, por exemplo:

A família adora fulano ou fulana! Isto é bom, mas não é suficiente. Jamais case com alguém porque é a melhor pessoa para todos. Só case se você achar que é “a pessoa” para você. Só você pode responder a esta questão, mais ninguém.

Uma vez uma filha minha perguntou como iria saber se ela tinha achado a pessoa certa, pois até aquele momento ela não tinha sentido que tinha amado alguém de verdade e nossa resposta foi simples, mas verdadeira: Você vai saber quando isso ocorrer.

Há quem resolva casar sem pensar muito porque está ficando para titia. Há quem resolva casar para sair de casa. Há quem queira dividir as despesas. Cuidado!!!

Outro ponto importante: Sexo antes do casamento cria um vínculo muito grande e, pela sua força natural, acaba por fazer com que se deixe de lado preocupações que deveriam preceder esta entrega completa de um para o outro.  E quantos casais ficam amarrados pelo sexo no namoro e no noivado, ficando cegos para o grande erro que estão cometendo com suas escolhas?

A pessoa que você escolheu tem pequenos deslizes de conduta?

Quando trata os pais? (Sendo estúpido demais, exagerando nas reações?)

 Quando dirige? (tentando levar vantagem sempre, sendo agressivo?)

 Nos estudos? (colando, copiando trabalhos, passando colegas para trás, não levando o curso a sério?)

Nos negócios? (fazendo pequenas trapaças ou desonestidades? Querendo subir a qualquer custo?)

Nas prioridades? (colocando o sucesso social e financeiro acima de estar com a família, participar da educação dos filhos, da conduta da casa?)

Dica: Ter uma lista de bons valores e prioridades mas em ordem diferente da do outro pode ser um grande problema em sua vida. É preciso alinhar os valores e prioridades antes de dar um passo como casar com alguém.

Atenção: Sinal vermelho!

Se você está casando pensando em mudar a pessoa depois do casamento ou esperando que  algo aconteça sozinho, não se iluda. Viver juntos traz uma série de descobertas do outro que já serão suficientes para se ter uma boa fase de adaptação, não comece uma vida com “coisas a resolver depois”.

A fé é um ponto importante a ser compartilhado entre o casal. Mesmo a Igreja admitindo casamentos entre pessoas de religiões diferentes, pois não podemos condenar ninguém por não ser da nossa religião, é tremendamente mais fácil quando compartilhamos nossa fé e, principalmente, vivemos juntos essa fé.

Por isso eu sempre coloco aos noivos a pergunta: quando foi a última vez que eles foram à missa juntos? Quando se confessaram? Quantas vezes eles tem se ajoelhado diante do sacrário para adorarem juntos Jesus na eucaristia?  É preciso alimentar o amor com a melhor fonte de amor que é o próprio Deus.

Pode parecer que isso não seja importante, mas é a fé que sustenta muitos casais em momentos de dificuldades externas ou do próprio relacionamento do casal.

“… eu te prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.”

Pessoal! A promessa do casamento é um voto que você fará ao outro e somente a ele ou ela, sobre a sua decisão incondicional pelo outro. Não há “se”, não há “porém”, não há condicionais. Você estará jurando ao outro que aquela decisão é madura e definitiva.

Então faça com certeza no coração ou não faça!


Dia das mães

7 de maio de 2011

 

Maternidade está na essência de toda mulher, das que tiveram filhos e das que, por uma razão ou outra, não os tiveram. Mas a maternidade está em todas.

E creio que a maternidade, por mais estranho que possa parecer, é uma característica divina por meio da qual Deus privilegiou a mulher, dando-lhe esta exclusividade.

Divina pela capacidade de criar vida, mas esta semelhança com Deus vai muito além disso:

Eu me lembro de minha mãe preparando uma refeição para nós em casa  quando eu me atrevi  invadir o quarto de minhas irmãs para  dar um susto nelas e minha mãe antecipou meus planos gritando: “Armando Durval , não provoque suas irmãs!”. Como ela sabia? Poderia estar me vendo no andar de cima da casa? Então isso não seria onipresença?

Também me lembro dos dias em que, após o término de um namoro, tentava entrar em casa como se nada tivesse acontecido e minha mãe me olhava e perguntava: “O que aconteceu, meu filho? Terminou com a namorada?” E mais uma vez eu penso que maternidade tem algo de divino. Não seria isso onisciência?

E as vezes que, por medo de uns beliscões após aprontar alguma, me trancava no quarto e minha mãe dizia: “Armando Durval, vou contar até três. Um, dois, …” E eu saia! Isso que é onipotência!

Quantas vezes minha mãe se sacrificou por mim? Quantas vezes minha mãe me perdoou pelas minhas incompreensões?

Não sei se todos vão concordar comigo, mas para mim isto é suficiente para comprovar esta tese da divindade da maternidade.

E nós homens, temos que nos conformar com este privilégio e valorizá-las ainda mais.

Que cada mulher entenda a sua maneira de viver esta maternidade, sempre tendo na mente e no coração a presença deste Deus amoroso, confortador e, ouso dizer, maternal.

Feliz dia das mães. (para todas as mulheres)


O eu, o nós e o nosso

25 de julho de 2010

 

Durante as fases da vida de cada casal tem-se sempre a perspectiva do eu, do nós e do nosso e a maneira como cada casal consegue lidar com estas perspectivas durante a vida, reflete como se vive e como o casal se realiza com o passar do tempo.

O eu

A busca por uma pessoa para se relacionar é sempre influenciada pela imagem que se tem de si mesmo, e problemas em saber e valorizar quem se é, podem distorcer muito as escolhas que cada um faz.

Imagine uma pessoa com uma idéia negativa de si mesma, por exemplo, na beleza. Alguém que sempre se ache feia, gorda, magra, baixa, alta, branca demais, morena demais, com cabelo ruim, com marcas de espinhas etc., sua escolha pode ir no sentido de buscar alguém “não tão bonito” pois ninguém muito bonito olharia para alguém com esta feiúra tão evidente.

Noutro exemplo, uma pessoa insegura, pode buscar alguém que seja, a seu ver, super seguro e esta segurança pode ser a maior razão do seu encanto pelo outro, já que sua insegurança tem um peso muito grande em sua vida.

E num último exemplo, alguém que se ache burro, pode querer alguém super inteligente e admirá-lo demais por isso, como se isso preenchesse esta sua imagem de falta de inteligência.

Todos estes exemplos são relativamente fáceis de entender e também é fácil  admitir que sempre há uma busca, no outro, do que não se tem ou não se vê com grande valor em si mesmo.

Se esta auto-imagem for muito negativa, a admiração pelo outro pode ser distorcida e em outro momento da vida pode ter uma consequência dolorida e difícil de lidar. Uma auto estima baixa pode levar a dois efeitos na escolha de uma outra pessoa, ou o efeito limitante, no qual eu escolho alguém não tão bom como poderia por não acreditar no meu próprio valor; ou o efeito compensador, no qual eu procuro no outro a compensação do eu acho que não tenho.

Imagine o caso acima da pessoa insegura. Ao invés de procurar entender a sua insegurança, aprender a lidar com ela, deixa isto de lado se apoiando na segurança do outro. Isto faz com que a segurança, que é um valor, acabe por ser super valorizada e isto pode  fazer a pessoa não perceber alguns defeitos no outro.

Explico melhor: As escolhas são sempre feitas a partir de um balanço de virtudes e defeitos do outro e naturalmente opta-se por quem tiver mais virtudes do que defeitos. Se for dado um peso muito grande a uma virtude, peso este que na realidade é uma carência de um e não a grandeza da virtude do outro, a escolha por esta pessoa pode ser errada e um dia quando se descobre as razões desta insegurança e se dá a devida medida à segurança do outro vê-se que havia defeitos que não foram considerados e deveriam ter sido e muitas vezes isto é descoberto  tarde demais.

Portanto temos que entender que o outro não pode ser a parte que nos falta. Precisamos nos conhecer bem, saber lidar com a imagem que temos de nós mesmos para podermos partir para um nós equilibrado e duradouro.

O significado de Deus na vida de cada um é importantíssimo no conhecimento de si mesmo. Alguém que entende santidade como a busca de um ideal de vida e não como a perfeição aqui na terra, aceita melhor suas limitações, mas não descansa nesta busca, não importando quantas quedas aconteçam na sua caminhada.

Alguém que entende que foi feito a imagem e semelhança de Deus e que foi criado para ser objeto do amor de Deus, sabe bem o valor e a dignidade que tem e isto é muito bom para se encarar um relacionamento equilibrado.

Deus nos fez e é um grande aliado na construção do nosso eu.

O nós

O nós aqui se identifica com o outro, pois o nós se dá a partir da entrega de si ao outro. Pelo doar-se para fazer o outro feliz.

E reforço o que disse acima:

-Quem se acha lixo, acaba por buscar quem o aceite como lixo ou, caso o outro não o veja como este lixo que se imagina, a entrega será sempre desequilibrada, causando, mais cedo ou mais tarde, frustração e sofrimento.

-É preciso entender a dimensão do seu próprio eu para que o nós seja verdadeiro e estável.

O namoro e noivado são as fases naturais de colocar virtudes e defeitos do outro na balança. Quase sempre também é uma fase de conhecimento do próprio eu. Esta caminhada é justamente para que um e outro se conheçam, para que conheçam as suas reações e as do outro nas várias situações que a vida apresenta e que este conhecimento leve ambos a uma decisão comum pelo nós.

A construção do nós passa por um alinhamento de expectativas sobre a vida, sobre as carreiras profissionais, sobre a futura família, sobre os parentes próximos, sobre como enfrentar as coisas que são imprevisíveis como doenças, perdas, necessidades etc. e que tipo de renúncias cada um está disposto a fazer por este nós.

O nós é uma escolha e toda escolha faz com que se deixe de lado outras pessoas, outras realizações, outros caminhos. Por exemplo, ambos podem ser profissionais com carreiras promissoras pela frente, mas por uma oportunidade de um dos dois, pode ser possível que o outro tenha que abrir mão da ascensão profissional dos seus sonhos. Você estaria disposto a fazer esta renúncia pelo nós?

O nós, como doação ao outro sempre implicará em renúncias: Ao orgulho, para que se peça e se dê o perdão sempre que for necessário. À  impaciência, quando o outro não reagir às situações com a velocidade que se espera. Ao  egoísmo, quando deixarmos de lado nossas vontades para fazer as do outro.

Tudo isto não quer dizer que o nós signifique anulação de si mesmo, pelo contrário, se eu me anulo, não tenho o que dar ao outro a não ser um nada. É preciso ter consciência e se tomar uma decisão sobre o que renunciar e para que renunciar.

O nosso

O nosso é algo que vem em decorrência do nós. E eu acredito que deveria sempre seguir esta ordem: O eu, o nós e o nosso.

O nosso é algo que se conquista juntos. Os nossos filhos, nossa casa e nossos bens.

Quando se fala em nossa casa é fácil pensar que duas pessoas se unem para comprar um imóvel ou mesmo alugar um. É fácil pensar que cada um fará a sua parte para que isto seja possível. Se um mês o dinheiro apertar, é fácil pensar que este será um problema nosso, pois a casa é de ambos.

Mas é comum isto não acontecer assim e a razão é que se entrou num nosso sem se ter construído um nós. Daí decorrem os problemas que um gasta mais do que deveria, só pensando em si mesmo, e há um desentendimento constante neste ponto de finanças.

Hoje é comum escutarmos casais que não casam sem antes terem comprado todos os bens, casa, moveis, eletromésticos, etc. e quando finalmente se casam, o casamento não dura nada, pois eles partiram para o nosso antes de fortalecer, ou mesmo existir, o nós.

Sempre que se começa a usar expressões como “Sua família.”, “Seus filhos.”, “Sua casa.” É um sinal de um nós enfraquecido ou mal construído.

O nosso sempre tende a tirar um pouco o foco que um tem pelo outro, desviando-o para o objeto do que é nosso.

Os filhos são o caso mais evidente disto, mas o trabalho e os bens também fazem isto.

No namoro, noivado, casamento e até o nascimento do primeiro filho, um está quase totalmente voltado para o outro. O  nós é vivido com a atenção quase exclusiva ao outro. Eu digo quase, pois a “nossa” casa e os “nossos” bens podem nos dividir um pouco, pois pode-se começar a fazer hora extra para conseguir pagar as prestações que ficaram maiores que o salário, sobrando menos tempo de um para o outro.

Mas, em se tratando de pessoas, um é praticamente exclusivo do outro e vice-versa até o primeiro filho.

Os filhos marcam um momento em que esta atenção começa a ser dividida. O nosso começa a ter um peso grande na vida dos dois. Os filhos são uma grande realização do nós de um casal, os filhos são uma grande graça de Deus na vida do casal, mas tomam um grande espaço na vida de um e outro.

É uma fase em que cuidar do nós é essencial, pois o tempo para o nós tende a ser muito dividido com o tempo para o nosso.

A maternidade é a plenitude da mulher, se bem que a paternidade é de suma importância para o homem e mais ainda para os filhos; o trabalho pode ser encarado como a plenitude do homem, mesmo as mulheres tendo avançado tanto nesta área também. Mas há um erro comum quando se cuida do nosso: quando isto resulta em descuido do nós, então, a mãe é mãe 24 horas e o pai é provedor 24 horas e o nós vai se enfraquecendo sem que se perceba disto.

Este processo de enfraquecimento do nós, quando estamos cuidando do nosso, é perverso porque não nos damos conta, pois temos a impressão que estamos fazendo tudo certo e conjuntamente, mas quantas vezes eu já ouvi homens que estão em vias de romperem seus casamentos dizerem: “Mas eu sempre me matei para colocar dinheiro em casa!” e não percebem que cuidaram do nosso, mas esqueceram do nós.

Uma boa disciplina dos filhos e a ajuda do pai na sua educação é muito importante para sobrar tempo do casal para o cuidado do nós.

É claro que toda esta divisão é natural e todos passam por isso, mas quase ninguém se dá conta do esvaziamento do nós pelos pequenos descuidos durante esta fase da vida.

Chega um momento em que os filhos crescem e deixam de exigir tanto da mãe e do pai, há também uma certa estabilidade na conquista dos bens que fazem parte do nosso e nesta hora é comum que ambos voltem a olhar para si e busquem saber novamente quem sou eu e o quanto do nós resistiu ao tempo. Esta é uma hora difícil e de muitas descobertas para ambos.

Redescobrir o meu eu é importante porque nós mudamos durante nossa vida e nem adianta pensar em um nós se nem sabemos mais que tipo de eu, eu tenho para entregar ao outro. Quem era eu quando escolhi o outro? Quem sou eu e quem vejo no outro agora?

É um recomeço ou um fim.

E infelizmente, para muitos, tem sido um fim. Os descuidos foram tantos que o nosso se tornou o único ponto em comum, mas os filhos assumiram suas vidas e se foram, os bens são suficientes e podem ser facilmente divididos e o nós não existe mais.

Esta é a hora que se tem que lutar para voltar ao início desta reflexão para que o caminho dos dois permaneça o mesmo, num novo momento de um nós seguro e duradouro.


Unidade

7 de julho de 2010

 

Esta é uma palavra muito falada, mas acredito que pouco pensada no seu significado nos vários contextos de nossas vidas. Falamos de unidade nas comunidades, na família, nos relacionamentos homem mulher, nas amizades, etc, mas não refletimos muito sobre o assunto.

No capítulo 15 de São João, Jesus nos aponta um caminho da unidade:

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em mim, ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto.

Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado.

Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim.

Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.”

Cada um com Deus

Pensando no âmbito pessoal, temos que ter uma unidade pessoal com Jesus e permanecermos unidos à videira para que nós possamos dar frutos. E a palavra de Deus e a oração nos alimentam nesta caminhada, nas nossas dificuldades, nas nossas alegrias, nas provações de toda a espécie.

Esta alegoria dos ramos é muito fácil de ser entendida, pois nós, os ramos, não podemos nos desprender da videira em nenhum momento de nossas vidas, sob pena de murcharmos e morrermos. No estudo, no trabalho, em tudo que fizermos temos que nos perguntar se estamos firmes na nossa fonte de vida que é Jesus.

Unidade não significa deixarmos de ser nós mesmos e Deus dá o maior exemplo disto respeitando sempre nossa liberdade, mesmo que decidamos não amá-lo.

Unidade é beber da mesma fonte da vida, da mesma seiva de Jesus, sem deixar de ser como somos, afinal, Ele nos fez como somos, pequenos e imperfeitos, e Ele nos ama infinitamente assim como somos, compreende nossas limitações, perdoa nossos tropeços.

Na família

A unidade na família passa pela unidade individual de cada membro com Jesus. Isto nem sempre é fácil, pelo contrário, mas isto não quer dizer que devamos nos esquecer de qual é o ideal. Portanto trabalhar a unidade da família passa por trabalhar a unidade de cada um com Deus  e de todos juntos, como família também. Pois onde dois ou mais estiverem reunidos em nome de Jesus, ali Ele estará. Todos bebendo da mesma seiva.

É claro que como Jesus nos trata com paciência e respeitando nossa liberdade, temos que aprender a respeitar cada um em nossa família. Se nós falhamos e Deus nos perdoa, temos que aprender a perdoar nossos familiares também. Se Deus espera nosso tempo, temos que aprender a esperar também.

Por isso é tão importante que famílias orem juntas, nas refeições, no início e fim dos dias comuns, que vão juntos às missas, que coloquem a presença de Deus em tudo que é comum.

Na amizade

A amizade é um capítulo especial, quando se fala de unidade, pois uma amizade em Cristo, tem uma componente a mais que a amizade puramente humana, pois cada um se torna , de certa forma,  responsável por ajudar o  outro a permanecer unido à videira que é Jesus.

E como Deus nos trata, a verdadeira amizade é pura, é verdade, é perdão. É não ter medo de dizer o que se sente, é poder ser quem realmente somos para o outro, sem receios ou temores. É poder errar e pedir perdão, é ser um porto seguro para o outro sempre.

Amigos em Cristo, compartilham seu sofrimento, suas dúvidas, suas alegrias também. Amigos em Cristo oram juntos, sabem das necessidades do outro, se fazem presentes.

Nos relacionamentos de casal

A unidade nos relacionamentos passa pela unidade a Jesus, pela amizade de duas pessoas, pela unidade dos dois com Jesus e pela possibilidade, no Matrimônio, de uma intimidade plena. Existe uma ordem nisso, primeiro eu com Jesus, depois nossa amizade, depois nossa unidade como casal com Jesus, depois o Matrimônio e por fim a intimidade total.

Acredito que é o máximo quando um casal vive esta unidade plenamente. Quando ambos crêem e vivem a palavra de Deus em suas vidas. Quando fazem que os  frutos deste amor sejam transbordantes da  presença de  Jesus. Sejam plenos de vida na seiva que é Jesus.

Num relacionamento não pode haver mentiras, omissões nem nada que se mantenha escondido. Por outro lado, cada um tem que estar pleno de si mesmo, sabendo seu valor, sabendo seu papel diante de Deus e do mundo para que a sua doação de si ao outro seja completa.

Nas comunidades

Uma comunidade em Cristo é uma família por eleição, pois nós escolhemos, ao contrário de nossa família de sangue, onde não tivemos a oportunidade de escolha. Mas todos os componentes devem estar ligados à videira, todos devem se respeitar, todos devem ajudar os mais fracos.

E como na família, todos devem orar juntos, devem cultivar a amizade, devem cuidar para que nenhum dos ramos se desprenda de Jesus.

Para viver esta unidade é preciso estar juntos, orar juntos, se alimentar da palavra e do corpo e sangue de Jesus juntos. É preciso experimentar Deus juntos e transbordar o amor de Deus aos outros.

Eu fico meio chateado quando uma comunidade deixa de estar junta nas missas. Uma comunidade precisa se alimentar junto.

Unidade, enfim, tem muita coisa para se pensar. Cada um de nós, cada casal, cada amigo tem que estar sempre se perguntando se está dando os frutos que Jesus prometeu aos que a Ele estiverem unidos.


Amor e Liberdade

24 de maio de 2010

Uma conseqüência do amor verdadeiro é a liberdade. Sempre falo nisso, mas é um dos pontos mais difíceis de viver no amor, no meu entender.

O amor de Deus é perfeito e por isso a liberdade que Ele nos deu é perfeita, a tal ponto de podermos não amá-lo.

Isto tem vantagens e desvantagens. A vantagem é a nossa capacidade de escolha, nossa possibilidade de nos questionarmos, de questionarmos os outros, de questionarmos até Deus, se quisermos. Isto, e só isto, permite que o homem avance tanto em todos os sentidos, nas ciências, na compreensão do que somos, etc.

Paradoxalmente, esta mesma liberdade, é a razão da humanidade estar tão degradada, pois o mal uso do seu ser livre traz conseqüências que necessariamente prejudicam não só um indivíduo como toda a humanidade. Não há, na verdade, aquela idéia que eu só prejudico a mim mesmo com meus atos, há sempre conseqüências externas, que podem vir a se manifestar no futuro em nossas vidas, em nossos relacionamentos, com nossos filhos ou com nossos amigos.

Trazer esta idéia para o relacionamento de duas pessoas não é fácil. O conceito de que o amor exige 100% para o outro e 0% para mim, parece que vai contra a nossa natureza. Somos seres possessivos, somos seres que necessitam se sentir amados, pertencidos e valorizados.

Mas o que temos que entender é que é possível viver este 100% para o outro se escolhermos alguém que pense assim também, e até quando isto não ocorre se entendermos o sentido do sofrimento de Cristo por nós.

E este entendimento tem duas dimensões: a primeira é que sofrer por amor vale à pena, pois um dia, trará conseqüências positivas aqui na terra ou no céu, pois teremos compartilhado a cruz de Cristo, e a segunda dimensão está totalmente vinculada à primeira e vem a ser o perdão. Esta é a chave de tudo.

Estou disposto a amar alguém até o sofrimento? Sofrimento que pode vir do uso da liberdade do outro de não me amar como eu o amo?

Estou disposto a perdoar quando o outro fez mal uso desta liberdade que o meu amor proporcionou?

Não?

Jesus fez isto por você e ainda faz todos os dias. Na cruz Ele carregou o peso do nosso mal uso da liberdade e esta cruz possibilita o perdão que recebo todas as vezes que tropeço.

E não pensemos que Ele não sofre com isso!

No amor, na entrega verdadeira, não há “se”, nem “mas”, nem “porém”, o amor “é” e ponto final.

Imagine se Jesus aceitasse a cruz só na condição de não errarmos nunca mais, ou se perdoasse nossas faltas na condição de mais uma queda e inferno na certa.

Ele sabia que continuaríamos a errar, ele sabia do peso daquela cruz por todo o tempo que a humanidade existisse e não recuou. Teve medo, ficou angustiado, não gostou nem um pouquinho, mas seguiu em frente.

Por isso, em termos de relacionamento, escolha bem. Decida consciente e assuma suas decisões de amor.


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