Eram quatro e meia da tarde e João não via a hora de terminar o expediente.
O clima na empresa não andava nada bom e ele já não sentia vontade de permanecer nem um segundo a mais naquele ambiente. O salário era insuficiente, o chefe não o valorizava como deveria e o mercado não estava receptivo para alguém da sua idade.
Tinha que agüentar, pelo menos até o sinal do fim do expediente tocar, aí estaria livre até o próximo dia. Como era meio calado, João chegava em casa e pouco comentava sobre as tensões do emprego e procurava esquecer do seu dia assistindo TV, lendo uma revista, ou ouvindo uma música que só ele ouvia.
Dona Solange, a esposa de João, sabia que algo não ia bem, mas por respeito deixava o barco correr da forma que ela pensava ser a melhor para todos. Cumpria suas obrigações na casa e respeitava as atitudes de João em silêncio. O café estava sempre pronto de manhã e o jantar sempre quente quando ele chegava. Ela também exigia o respeito dos filhos quando ele assumia o comando do controle remoto da TV, mesmo quando ele mudava de canal no meio do desenho dos Simpsons, o mais assistido pelos dois filhos, aliás uma filha de 14 e um filho de 16 anos.
-“Seu pai está cansado, deixem ele assistir o que quiser.” – dizia ela aos filhos que invariavelmente reclamavam do monopólio do poder na casa.
Por falar em filhos, eles até que eram muito bons, nada de extraordinário, mas pelo menos não davam trabalho. Bem, o rapaz andava saindo muito a noite e voltava meio tarde, o que preocupava Solange ,principalmente durante a semana, pois acordá-lo no dia seguinte era uma tortura.
Ela desconfiava que o monopólio do marido na TV que tinha o sinal da TV a cabo acabava incentivando as saídas do filho, mas parecia um mal necessário.
A menina, ou melhor, a mocinha de uns tempos para cá andava isolada em casa. O iPod funcionava dia e noite e a sua distração com tudo: lição, arrumação do quarto, ajuda na casa, vinha chegando a níveis insuportáveis para Solange.
-“Um dia ,quando o João melhorar um pouco, eu vou falar com ele sobre esta menina, pois do jeito que vai, ela vai me deixar louca, ainda por cima anda meio desbocada usando uns termos com o irmão que nem os meninos da minha época usavam!” – Pensava Solange consigo mesma.
Um dia a noite, justo quando foi reprisado o primeiro episódio do desenho que os meninos mais gostavam, o pai queria ver o jornal. Todos estavam à mesa do jantar e a TV ligada quando o pai pediu o controle remoto. O menino gritou quase que instintivamente:
-“Não, não muda hoje, é um capítulo especial ! Este foi o primeiro, feito a dez anos!” – O que não adiantou nada, pois antes do apelo terminar o jornal já estava diante deles imperativo e solene.
-“Eu não vou mais jantar !” – Gritou o rapaz ameaçando levantar, enquanto a sua irmã ia colocando o fone nos ouvidos e ligando o seu iPod.
-“Parem com isso os dois já! Eu já não agüento mais esse jeito de vocês. Um, não para mais em casa. Eu nem sei onde anda todas as noites e a outra, com essa droga ligada dia e noite no ouvido que não adianta falar nada que você não ouve.” – Gritou Solange.
-“Fiquem calados que eu quero ouvir o jornal.” Falou João sem tirar os olhos da TV.
CORTA ! PAREM A CENA !
Você já viu cena parecida com esta? Não com você, lógico, mas conhece gente que é assim mesmo. Certo?
Bom, então como João e Solange poderiam sair desta? Eu tenho a impressão que se tudo continuar como está, melhor não fica, ao contrário parece que tudo vai piorar.
Vamos falar com a Solange. Ah, se as mulheres soubessem que poder elas tem sobre a saúde da vida familiar…
-“Solange, Solange, vem cá um pouquinho.”
-“Quem é você?”
-“Não importa. Eu só quero ajudar você e sua família. Aceita?”
-“Bom, se for para ajudar tudo bem, mas como eu não te conheço, o senhor fica aí na entrada da casa sem entrar. Tá bom?”
-“Está ótimo.”
-“Eu sei que as coisas não andam bem nesta casa. Não é verdade?”
-“Nem vem com este papo que eu amo muito o João, meu marido.”
-“Não pense mal de mim, eu sei disso e por isso acho que está na hora de você arriscar um diálogo com ele.”
-“Que diálogo? Eu faço tudo direitinho, cuido das crianças, arrumo a casa e, de vez em quando, cumpro meu papel de mulher. O senhor sabe né?”
-“Sei sim.”
-“Mas o João é que anda meio esquisito. Anda meio desligado do mundo e até de nós. Mas coitado, o clima no emprego dele anda muito tenso e eu procuro proteger o João das preocupações da casa.”
-“Você acha que ficando calada ajuda o João a suportar o que ele vem passando?”
-“Acho que sim. Bem, não sei não, parece que não tá fazendo efeito.”
-“Isto mesmo, não está fazendo efeito e pode até piorar tudo.”
-“Como assim?”
-“Bom a isto chamamos respeito humano. Você deixa de falar algo que deveria e ao invés de ajudar acaba piorando as coisas.”
-“Mas como é que eu vou começar a falar de um assunto desses?“
-“É preciso achar um momento propício para puxar o assunto. Vocês tem muitos momentos a sós?”
-“Muito poucos. A não ser quando eu estou no banho e ele faz a barba. Lá até que nós trocamos algumas palavras antes de começar o dia.”
-“Ótimo. É um bom lugar para começar.”
-“Mas se formos conversar no banheiro vamos nos atrasar!”
-“Que tal a noite, após o jornal na TV , um banho de fim de dia?”
-“Boa idéia , as vezes nós até tomamos banho juntos.”
-“E por falar neste assunto, a quanto tempo não fazem isso?”
-“O senhor não acha que já está indo longe demais? “
-“Desculpe.”
-“Tá bom, faz muito tempo, sei lá quanto.”
-“O homem precisa ser fisgado, para depois se abrir. Use esta tática. Seja carinhosa. Até ousada. Faça-o sentir-se desejado. Demonstre que ele tem valor para você.”
-“Boa idéia. E aí o que é que eu faço? “
-“Bom, depende até onde for o banho. Espere o depois para iniciar um diálogo franco com ele. Diga o quanto você anda preocupada. Diga que confia nele e mesmo que a situação não melhore logo, você o apoiará no que ele decidir.
Demonstre que ele tem valor. Os homens tendem a se sentir muito desvalorizados quando sua capacidade profissional não é vista pelos outros. Eles são criados para serem provedores e reprodutores , quando isto não vai bem eles são derrubados.”
-“Ai credo! Que história é esta de reprodutores? “
-“Isto é forma de falar, mas a profissão e a masculinidade são duas coisas que afetam terrivelmente o autovalor do homem. Não esqueça disto! Se você, por “respeito” ao seu marido que anda meio desligado, acaba por deixar que a vida sexual do casal esfrie, você estará contribuindo para que as coisas piorem muito, ao contrário se você utilizar isto como estímulo para ele, poderá ajudá-lo e muito.”
-“É mesmo? Eu nem pensei nisto, mas faz sentido. E depois?”
-“Bom o diálogo deve ir desde a sua compreensão do problema dele até o modo como você se sente com os problemas da casa, que não são só seus e que você tem levado sozinha.”
-“Isto o senhor tem razão. Eu tenho dois filhos que andam me dando trabalho. Coisa que nunca me deram antes.”
-“Eu sei como é, mas não se preocupe, pois se vocês dois se acertarem eles voltam ao normal. “
-“Sabe que eles vem piorando junto com o João. Parece que eles é que estão mal no emprego.”
-“Não é isto. É que o relacionamento dos pais afeta em muito os filhos, e em qualquer idade que eles estiverem.”
-“Tá bom. Vamos supor que tudo dê certo nós conversamos, eu falo da casa das crianças, ele fala do emprego, das dificuldades, da falta de grana , e daí?”
-“Daí que vem o principal.”
-“E o que é? A sua conta pelo conselho? “
-“Não é nada disso. Orem juntos. Somente uma vida de oração, como casal pode sustentar um lar em dificuldades, seja com o emprego, seja com os filhos ou mesmo no relacionamento dos dois. Orem sempre, nunca parem. Não tampem o canal de graças que Deus abriu no céu no dia do seu matrimônio.”
- “Aí complicou. Eu até concordo com o senhor, mas isso faz mais tempo ainda que eu não faço.”
- “Pois bem, como eu não vou cobrar pelo conselho, termino por aqui o que tenho a dizer para a senhora. Experimente e verá os frutos nas suas vidas. Até logo.”
- “Puxa moço, obrigado. Eu vou tentar, afinal não tenho muita coisa a perder mesmo.”
- “Tchau.”
-“Tchau, foi um prazer. Como é o nome do senhor mesmo? Já foi.”