Sentimento de pai

Fevereiro 28, 2008

Já faz um tempo eu e minha esposa quase perdemos uma filha por uma doença grave. Foi a experiência mais dolorosa em nossas vidas e nada neste mundo pode se comparar a esta dor, mesmo que hoje, graças a Deus, ela esteja conosco e muito bem, mas a imagem de entregá-la num centro cirúrgico, mais que uma vez, sem saber se ela voltaria, está viva em mim como se fosse hoje.

 

Num outro episódio fomos visitar uma conhecida nossa que havia fugido de casa com o namorado, engravidara e estava internada pois tinha feito um aborto. Que cena dolorosa; a moça arrependida não levantava os olhos para encarar ninguém e até hoje, eu sei que isto tem um enorme peso em sua vida como um grande sentimento de culpa, mesmo que ela já tenha dois filhos.

 

Num grupo de jovens, falando-se de namoros entre eles, se falava dos relacionamentos intimos com os namorados e namoradas como se fosse a coisa mais natural possivel. E ao ouvir isto eu senti muita dor em meu coração, imaginando isso com meu filho e minhas filhas e como eu reagiria ao saber de algo assim com eles.

 

E então eu pensei na minha tristeza nos três relatos acima e imaginei o sentimento de Deus, que tanto nos ama, que mandou Jesus morrer por nossos pecados e que nos quer salvos, para podermos estar perto dele aqui e plenamente nele no céu. Cada um que pecando, nega o amor de Deus, causa uma dor no coração misericordioso de Nosso Senhor.

Como Jesus deve ter sentido muita tristeza ao ver o Jovem rico do evangelho ser mais apegado aos seus bens do que a vontade de segui-lo, recusando a proposta de Jesus . E como deve ter sido duro ouvir da multidão, durante a sua Paixão, a expressão: “Cricifica-o, Crucifica-o”.

Num aborto, não só a vida da criança se perde, mas a da mãe e do pai ficam comprometidas diante de Deus e deles mesmos, moralmente e muitas vezes fisicamente, pela mãe, pois, com certeza, esse não é o plano de Deus para a vida de um bebê, nem de um casal.

Já os jovens de hoje, que buscam no sexo livre com suas namoradas e namorados algo “seguro” com camisinhas e pilulas anticoncepcionais, se esquecem do plano de amor de Deus para o Matrimônio e como esta intimidade prematura e com tantos parceiros mina a possibilidade de um relacionamento fiel, responsável onde o dom de si, entrega total de um ao outro, esteja presente. Deus se entristece pois sabe quais as consequências que isto traz com inúmeros casais desfeitos e por tantos filhos sofrendo pelas separações dos pais e vivendo no desamor.

Eu fico imaginando, como pai, a dor no coração de Deus cada vez que um de nós peca. Cada vez que cada um de nós vira as costas para o seu plano de amor para nossa vida. Cada vez que, de braços abertos, Deus espera e não nos vê correr em sua direção.

E Ele deve pensar e ter vontade de “controlar” tudo e não permitir que nós pequemos, que nós nos enganemos, que nós morramos para seu amor. Mas Ele não nos “controla”. Ele espera de braços abertos até que nós voltemos para casa. E como na parábola do filho pródigo, ele anseia por dizer de cada um nós como disse ao filho mais novo que voltava após viver em pecado: “Este meu filho estava morto e agora vive.”. E o Pai não falou de pecado, nem deu muita atenção à confissão do filho mas Deus quis fazer uma festa para comemorar  a volta do filho para Ele. E assim fará com cada um de nós, ao voltarmos e encontrarmos este Deus nos esperando.

 

 

 

 


Experiência de Deus

Janeiro 10, 2008

Há alguns anos atrás eu senti que meus filhos precisavam ter uma experiência de Deus e sem refletir muito sobre o que esta expressão poderia significar encaminhei-os para um movimento católico, Movimento Pax (www.movimentopax.org.br), para que eles fizessem um encontro de jovens. 

Hoje, alguns anos depois e muito envolvimento com o movimento, não só dos meus filhos, como de toda a família, voltei a refletir no que significa esta experiência de Deus. 

Parece até fácil falar que as pessoas precisam ter esta experiência de Deus, mas o que isto significa realmente nem sempre fica claro. 

Jesus, após sua ressurreição, enviou os seus discípulos, inclusive todos nós, a anunciar a Boa Nova, o Evangelho, a toda criatura e em todos os lugares. E a Boa Nova é que Deus nos ama com amor apaixonado. Um amor que não pode acabar, um amor que não precisa de nada de nossa parte para que o tenhamos. Deus nos ama gratuitamente.

 É isto a experiência de Deus? Ainda não. 

É como se uma moça contasse para a outra que conheceu uma pessoa maravilhosa e que gostaria de apresentá-la, pois nunca tinha visto alguém “tão certo” para ela. Coisas de amigas que procuram namorado para a outra.  

Contar desta pessoa pode entusiasmar a amiga, mas ainda não houve esta experiência com a outra pessoa.  

Com Deus é assim. 

 Alguém tem que contar-nos esta boa nova, mas precisamos encontrá-lo, ouvir o que tem a dizer para nós para começarmos a entender e dar abertura para que Ele aja em nossa vida. 

Deus inspirou as escrituras, a Bíblia, para que sua comunicação conosco fosse clara e efetiva. Mas a Palavra de Deus, tem seu efeito tanto maior quanto mais pedimos que o próprio Deus nos auxilie nesse entendimento. Nós tomamos a iniciativa de ler a palavra, Deus age em nosso coração e em nosso entendimento para torná-la viva em nós.  

E quando começamos a perceber a palavra como resposta ao nosso dia a dia estamos começando a dialogar com Deus e a ter esta experiência de Deus. Deus nos fala através da sua palavra. Ele sabe das nossas necessidades e fraquezas e se comunica conosco na Palavra. 

Nas missas também temos a Liturgia da Palavra onde as leituras da Bíblia são proclamadas e em comunidade meditamos e temos a oportunidade de vivenciar a palavra de Deus.  

Aqui temos outra dimensão da experiência de Deus que é viver em comunidade. Compartilhar essa presença de Deus com pessoas que também acreditam neste Deus amoroso reforça nossas opções e fortalece a divulgação da Boa Nova de Deus. 

Também na missa fazemos orações que são diálogos com Deus e a oração é outro momento importante dessa experiência de Deus, não só na missa, mas durante todo nosso dia.  

Se reconhecermos a presença de Deus em nossas vidas e que essa presença é constante, durante todo o nosso dia podemos estar em diálogo com Deus. No trabalho, na escola, em casa, em nosso lazer, Deus sempre nos ouve, em nossos “graças a Deus”, em nossos “Deus te pague”, em nossos “Deus te abençoe”, em nossos “se Deus quiser”, ou até numa oração específica por um trabalho difícil, um ônibus atrasado, uma prova na escola, ou seja, em tudo que fazemos podemos fazer e orar ao mesmo tempo. E a resposta de Deus é paz em nossos corações, confiança e aumento de nossa fé. 

Mas nosso dia a dia nos impõe inúmeras decisões que temos que tomar, que podem ir desde a opção de levantar prontamente para ir ao trabalho ou enrolar mais um pouco na cama deixando a obrigação um pouco atrasada; ou que caminho tomar num trabalho profissional, que amizade vale a pena manter, que pessoa escolher para namorar, que lugar almoçar hoje etc. etc.  

Quem experimenta Deus em sua vida começa a perceber que há uma voz dentro de nós nos auxiliando nessas decisões do dia a dia. Das mais fáceis às mais difíceis é o Espírito Santo que começa a falar em nós e coisas que antes pareciam tão banais se fizéssemos, começam a nos incomodar. Começamos então a ver o mundo de uma maneira diferente. Nos incomodamos mais com a injustiça, nos sensibilizamos mais com o sofrimento dos outros, nossas decisões admitem mais renúncias para estar no caminho de Deus, etc. Parece que fica mais claro quando temos remar contra a maré. 

Quem sente isso crescer em sua vida, está certamente tendo uma experiência de Deus. 

Mas ainda não é o fim desta experiência. Quem realmente “mergulha” nesta experiência de Deus logo sente a necessidade de transbordar este amor recebido às outras pessoas. Não conseguimos mais guardar esse tesouro somente para nós. Somos impelidos a começar a contar esta Boa Nova aos outros e a querermos vê-los “mergulhar” também nesta experiência que tivemos e continuamos a ter todos os dias. 

E como manter todo esse fogo aceso dentro de nós por um longo tempo? 

Muitos e muitos encaram esta experiência de Deus como algo emocional e fantástico, mas quando aparece alguma dificuldade, quando algumas pessoas se sentem incomodadas com nossas opções, quando se tem que deixar o que é “gostoso” pela renúncia, por exemplo, de um relacionamento que sabemos que nos afasta de Deus, acabam por desistir. 

É como na parábola do semeador (LC 8, 4-16) onde algumas sementes caem na beira da estrada e são pisadas e as aves do céu comeram, outras nos pedregulhos e tendo nascido secaram por falta de umidade, outras nos espinhos, cresceram mas foram sufocadas por estes espinhos mas algumas caem em terra fértil dando muitos frutos.

 A experiência de Deus é assim. Perseverar depende muito de nós, mas sempre teremos a ajuda de Deus, na vivência dos sacramentos, principalmente a Reconciliação (confissão) e Eucaristia que são essenciais para a manutenção dessa experiência em nós.