Marta e Maria

26 de abril de 2012

 

Eu estava lendo alguma coisa de Deus antes de começar a trabalhar e resolvi ler a catequese do Papa Bento XVI desta última quarta-feira. (http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=285991)

Lá Bento XVI fala da aparente contraposição entre a oração e a ação. E cita o famoso episódio bíblico onde duas irmãs recepcionavam Jesus em sua casa e uma cuidava dos afazeres da casa, Marta, enquanto a outra, Maria, ficou escutando Jesus falar das coisas do Pai.

Vale a pena ler a reflexão do Papa.  

Mas lendo esta catequese, eu fiquei pensando se no relacionamento de casal isso fazia sentido.

Eu sempre penso no amor humano como um amor  imagem e semelhança do amor de Deus e por isso, tento tirar alguma coisa do nosso aprendizado de relacionamento com Deus, para o relacionamento humano também.

No matrimônio há muitas preocupações com finanças do casal, com administração da casa, com a necessidade dos filhos e quando eu pensei nisso vi o quando nós nos deixamos ser Marta e descuidamos da parte mais importante que é o amor e o diálogo do casal. O maior investimento que o casal faz para o futuro é viver o amor do presente intensamente.

“Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas com tantas coisas, mas de uma coisa só tens necessidade, Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Luc 10,41-42)

Um casal cristão tem que ter fé na providência de Deus, pois ele prometeu que cuidaria de nós e o casal tem que cuidar mais das coisas mais importantes:  alimentar seu amor para mantê-lo vivo.

Uma vez em um curso sobre educação de filhos, um pai de muitos filhos, justificou sua constante ausência de casa e consequente ausência na educação dos filhos, devido à necessidade de trabalhar para manter o padrão de vida da família. Ele estava sendo Marta e deixando as coisas mais importantes para segundo plano .

Há mulheres que, por mais boa vontade que tenham em deixar a casa em ordem, preparar o jantar do esposo, cuidar de tudo dos filhos, nunca tem tempo para dar-se ao esposo. Dar seu tempo, escutá-lo, tentar entendê-lo, construir e viver a intimidade do casal em sua plenitude. É o caso da mulher tão prestativa e cuidadora que depois do primeiro filho nem sobra tempo para fazer o segundo.

E eu creio que tem muita gente que pensa sinceramente que isto é o certo, como a Marta do evangelho fez, mas é preciso abrir os olhos. É preciso saber balancear as duas coisas. E quem ler atentamente a reflexão do Papa verá que os apóstolos perceberam que para cuidar do dia a dia da comunidade era preciso eleger outras pessoas para o serviço, enquanto eles cuidariam da palavra de Deus. Os escolhidos foram ungidos, pois toda ação tem que ser um transbordamento do amor, ou seja, primeiro vem o amor, e este amor dará sentido à ação, à caridade.

Do mesmo modo, não adianta termos mil preocupações com as tarefas e responsabilidades da família se nos esquecemos do que une a família, do que dá sentido à família, do que é a base da existência  familiar que é o amor do casal, reflexo do amor de Deus.

Sempre seremos um pouco de Marta em nossa vida de casal. Mas quantas vezes não estamos esquecendo de ser Maria e prestar atenção naquilo que realmente importa?


Corremos tanto…

6 de março de 2012

 

 

Corremos tanto,

Passa o tempo,

E vem a sensação que deixamos algo para trás,

Os filhos cresceram,

Vivemos emoções, é certo,

Mas a paixão arrefeceu-se,

Não o impulso incontrolável de uma aventura,

Mas a paixão de viver,

A vontade de fazer alguém feliz,

A vontade de transformar o mundo,

Aquele sonho grandioso, que hoje mal se ousa sonhar,

Não podemos nos conformar em ir levando,

Há um caminho a percorrer,

Viver é continuar sonhando,

Viver é continuar lutando,

Viver é continuar tentando,

Viver é não deixar uma voz interior te convencer que seu tempo já passou,

Temos tão pouco tempo aqui, se pensarmos na eternidade com Deus,

 Que, por mais idade que tenhamos, sempre seremos crianças para Deus,

Então por que nos acomodar?

Por que nos preocupar com o que possam pensar os outros?

Vamos continuar brincando de viver,

Brincando de sonhar,

Sonhando com um mundo de pessoas que se amam e conseguem se apaixonar por viver,

Pois um dia nosso Pai virá nos chamar carinhosamente,

Para continuarmos, no dia seguinte, brincando de viver no céu.

 


Primeiro se separe da sua mãe…

1 de março de 2012

 

Quando eu era criança costumava sair do colégio e ir para o Forum de Santos, onde meu pai trabalhava, e ficava por lá para voltarmos juntos para casa.

Naquela época não havia divórcio no Brasil e as separações eram auxiliadas pelo pessoal que fazia assistência judiciária no Forum. Meu pai, muitas vezes, era chamado a substituir algum dos procuradores que faziam isto e, enquanto ele conversava com as pessoas que buscavam a separação, eu ficava numa mesa atrás dele escutando e brincando numa máquina de escrever.

Eu me lembro bem quantas vezes ele escutava as razões dos reclamantes para se separar, reclamantes que quase sempre estavam acompanhados ou acompanhadas de suas mães e ao final de uma explicação cheia de mágoa e até raiva ele perguntava se a pessoa morava com a mãe. Ao receber uma resposta positiva ele terminava com a seguinte frase: “Primeiro se separe de sua mãe, espere 6 meses e depois volte aqui.”

Eu achava engraçado aquilo e não fazia ideia da sabedoria que estava por trás daquele conselho.

Quatro décadas depois…

Um dos pontos que mais gera problemas nos casais ainda é a influência que os pais dela ou dele exercem na vida dos dois. E pode parecer piada, mas isto tem destruído muitos casamentos.

Muitos pais não estão conscientes que os filhos não são sua propriedade e tem uma enorme dificuldade de deixá-los viver suas vidas como adultos.

Por sua vez, muitos filhos não estão maduros o suficiente para assumir sua própria vida orbitando no papai ou na mamãe mesmo depois de casados.

Seria bom que os noivos se preparassem melhor para não ter que descobrir as coisas só depois de casados.

Por melhores que nós, os pais, sejamos, nossos filhos precisam assumir suas vidas, enfrentar suas dificuldades e decidir sobre sua maneira de viver seu casamento.

Cada um dos cônjuges vem de uma família diferente, com educação diferente e uma história diferente do outro. A nova família não será nem espelho da família do esposo nem espelho da família da esposa, mas tem que ter sua identidade própria. Mesmo que assumamos as coisas boas que aprendemos de uma e de outra família.

Minha esposa, a Helô, sempre fala que os casais, desde o namoro, tem que ir construindo uma cerquinha em volta de suas casas para que os pais saibam que dali para dentro tem que se pedir licença para entrar.

Filhos, nada de mamães com a chave de suas casas!

Outro conselho que ela sempre dá é que o casal more numa distância dos pais não tão perto para eles irem de Havaianas, nem tão longe para irem de malas. Evitando assim intromissões na vida do casal.

Visitar os pais é algo bom e desejável, mas se tiver que ser todos os dias é para se preocupar.

Se você não consegue deixar sua casa do seu gosto, com aquela parede da cor que você quer, porque a “mamãe” não gostou, cuidado!

Comecem hoje discutir sobre dias de festa como Natal, Páscoa, etc. Cheguem num acordo sobre como conciliar a relação com as famílias dos dois.

Eu já vi um casal que antecipou a volta da  lua de mel porque a moça estava com saudades da mãe e não bastaram todos os telefonemas dos dias que estiveram viajando.

Seus pais não tem influência na vida de vocês? Ótimo. E na educação dos seus filhos?

Bom, isso é um outro assunto, até mais.


Amar um filho

20 de fevereiro de 2012

 

Este é um desafio maravilhoso na vida de cada um que percebe a dimensão de ser pai ou ser mãe,

Perceber a forma de um filho ser,

Entender seu idioma e sua maneira de se comunicar, mesmo que seja no silêncio,

Escutar seus sinais,

Estar perto quando um “não é nada” for um pedido de socorro,

Quando um erro for a única maneira de chamar nossa atenção,

Perdoá-lo sempre, mesmo quando nosso coração estiver ferido,

Ir buscá-lo quando se afasta de nós, mesmo que isto não seja fácil,

Contar histórias ao dormir, contá-las sempre.

Falar das coisas que você acredita, contar suas histórias,

Sentar ao seu lado para estudar, motivá-lo a acreditar em si,

Acalmá-lo nas vésperas de prova,

Estar lá nas suas formaturas,

Pedir perdão quando o decepcionamos,

Beijá-lo, abraçá-lo e dizer que o amamos mais que a nós mesmos,

Querer vê-lo crescer, assumir sua própria vida,

Apontar os caminhos, mesmo quando estes forem os mais difíceis,

Mesmo quando nós mesmos saímos dele uma vez ou outra,

Amar um filho é não querer vê-lo errar como nós erramos,

É saber dividi-lo com alguém,

É apoiá-lo quando resolver sair de casa,

É dar a certeza que ele jamais deixará de ser um filho, jamais deixará de ser amado.

É deixar esta porção de você continuar sua própria história.

E ter certeza de que assim, um pouco de você jamais morrerá.


Mais uma gravidinha!

1 de fevereiro de 2012

 

Nossa, estamos vivendo um baby boom! As pessoas estão mais confiantes no futuro, está sobrando mais dinheiro no fim do mês, as avós estão ansiosas para terem seus netinhos (os mais lindos do mundo) e, afinal de contas, é a conseqüência natural dos casamentos.

Tudo isto é verdade, mas é preciso refletir um pouco mais sobre o assunto: ter filhos.

Vou partir de uma afirmação que sempre faço:

“O que os filhos mais precisam dos pais é que eles se amem.”

Como estão os casais? Se amando de verdade? Trabalhando a construção e manutenção do “nós”?

A casa é nossa.

Carreira é minha.

Parentes são nossos.

Filhos são nossos.

Mas o “nós” é aquilo que, tirado tudo o que é nosso, sustenta a relação. No “nós” está a amizade entre os dois, a cumplicidade do casal, a chama que não se apaga. No “nós” está a felicidade de um com o sucesso da carreira do outro. No “nós” está a vontade de dar as mãos, mesmo quando já se passaram longos anos juntos. No “nós” está a coragem de falar, mesmo os assuntos mais difíceis para cada um. No “nós” está o perdão e a compreensão que o outro é tão imperfeito como nós.

Veja o texto: http://armandoporto.wordpress.com/2010/07/25/o-eu-o-nos-e-o-nosso/

Fico feliz com uma notícia de que uma nova vida vem ao mundo em breve, mas me entristece acompanhar tantos casos de separações entre jovens e, pior ainda, com filhos pequenos.

Filhos jamais podem ser usados como recurso para salvar casamento. Filhos jamais podem ser um projeto de realização pessoal, pois tem que ser um projeto de realização deles e só deles. Filhos jamais podem ser encarados como uma propriedade nossa, pois não são, somente assumimos a responsabilidade de prepará-los para vida deles mesmos.

Filhos são sim um privilégio que Deus nos dá de participarmos de sua obra criadora, mas este privilégio vem com uma enorme responsabilidade de darmos a vida por eles. E dar a vida pelos filhos é dar a eles o que mais precisam: nosso amor de casal.

Alguém pode argumentar que não dá para ser um casal perfeito para então ter filhos, pois o tempo passa! Mas é preciso ser sincero e responder para si mesmo e para Deus:

Meu matrimônio está vivo?

Estou vivendo este sacramento todos os dias?

Mesmo nos desentendimentos, estamos lutando pelo “nós”?

Bom, se você consegue responder que sim a estas perguntas, sinceramente, então vamos lá, pois é um enorme prazer acompanhar a vida dos filhos, vê-los crescer e ter confiança que estamos fazendo a nossa parte e que Deus fará a dEle. Se você ficou em dúvida, trabalhe o “nós” e depois pense nos filhos. Será mellhor assim.


Espaços

29 de novembro de 2011

 

Tenho comigo que nosso coração não se dá bem com o vácuo, ou seja, não consegue ficar vazio e se há uma chance que isso aconteça tentamos preenchê-lo com algo que diminua esta a sensação dolorosa.

Se nos falta amor, tratamos de achar uma compensação na diversão, no trabalho, onde somos reconhecidos pelo que fazemos, na bebida, no prazer e em qualquer coisa que nos faça, mesmo que enganosamente, nos sentir melhor. Só que as compensações não preenchem os vazios do coração. Talvez nos anestesiem para a dor do vazio, mas não são suficientes para afastá-la e é por isso que normalmente as compensações nos colocam num círculo vicioso que é tão difícil de sair.

Acho que todos concordam, pelo menos em parte, com isso. Mas o difícil de reconhecer é quando nós somos os causadores do vazio no coração dos outros e, nestes casos, ainda reclamamos do afastamento destas pessoas de perto de nós.

Se nós somos pais e nossos filhos fazem questão de estar longe de onde nós estamos, é porque estamos causando um vazio no coração deles, que buscam no mundo, na música, na bebida, no sexo, nas amizades e até num relacionamento errado a compensação do amor que não estamos sabendo dar a eles.  Já testemunhei inúmeros relacionamentos e até casamentos de filhos que queriam chamar a atenção dos pais, ou escolhendo alguém que os pais reprovavam, causando-lhes dor e preocupação ou até casando com pessoas que os pais escolheriam, no sentido de receber uma aprovação dos pais. Em ambos os casos são inúmeros os exemplos que conheço de casamentos que não duraram alguns anos sequer. Pois nem a agressão, nem a escolha para agradar podem tirar o vazio que se tem com relação ao amor dos pais.

Somos ausentes, somos excessivamente rigorosos, somos excessivamente moles (e acho que este é o maior mal dos pais de hoje), se não dizemos que os amamos, se só criticamos, se os sentenciamos com um: “você não tem jeito mesmo!”, causamos um grande vazio nos seus corações e não adianta olhar para eles e perguntar o que há de errado com eles, mas é melhor olhar para si e pensar no que estamos falhando como pais que deveriam amar e não estão conseguindo.

Já vi sacerdotes reclamarem e se sentirem ameaçados por “um concorrente” e começarem a criticar e botar defeito em outro sacerdote, na outra paróquia ou no outro movimento e não é difícil que os seus fiéis debandem quando sentirem que o amor que deveriam receber de seu pastor está ausente. É um caso de vazio e, de novo, a pergunta a ser feita seria:  “No que eu estou falhando como pastor?”  “No que eu poderia amar mais, como Jesus amou as suas ovelhas?” “ O que meus fiéis estão buscando longe de mim que não estou conseguindo dar?”  Esta é uma situação que eu já testemunhei inúmeras vezes e certamente testemunharei de novo, pois como homens, sacerdotes precisam ser amados, mas precisam saber amar também.

Nos relacionamentos isso também acontece e, cada vez mais, vemos casos de pessoas que se separam depois de uma longa convivência sem se dar conta que tudo teve início no “se acostumar” com o vazio, vazio causado e vazio recebido.  O grande engano é que os corações jamais se “acostumam” com o vazio. Os corações querem receber amor e amor pode estimular carinho, mas não é carinho, amor pode gerar filhos, mas os filhos não são o amor em si, amor pode fazer-nos cuidar do outro, mas o cuidado não é o amor, o amor pode escrever uma história, mas a história não é o amor.

O amor é algo diário, como nossa respiração, não adianta lembrar do ar puro que respiramos nas montanhas para podermos parar de respirar hoje, não adianta pensar no quanto já respiramos durante todos estes anos para poder parar de respirar, não podemos. Amar é algo que temos que fazer todos os dias, sob pena dele morrer, como morreríamos se parássemos de respirar. E se não amamos, causamos o vazio no outro e o outro vai buscar sua compensação, admitamos ou não.

Já ouvi testemunhos de pessoas que depois de longos anos de separação começaram a admitir que fariam tantas coisas de maneira diferente e em vários casos, depois que o parceiro morreu, neste caso fica só a intenção. Reconhecer o vazio que causamos não é fácil, causa dor, mas é um santo remédio, inclusive para o nosso coração. Mas é preciso que façamos isso! Enquanto estamos vivos, enquanto nosso amor está vivo.

Por fim, quero dizer que só um amor pode nos preencher verdadeiramente: o amor de Deus. Mas o amor de Deus vem até nós através do amor de homens e é no relacionamento com pessoas que se alimentam no amor de Deus que experimentamos a plenitude em nossos corações. Pais, sacerdotes, amigos, cônjuges, todos nós temos que ser canais do amor de Deus ao outro para podermos preencher e sermos preenchidos verdadeiramente.


Eu sei o que você está pensando!

26 de setembro de 2011

 

Nossa comunicação humana é fantástica, pois envolve não só palavras, mas também gestos, entonação, expressões e essa riqueza de acessórios pode nos levar a um falso entendimento do outro em várias situações.

Se eu falo que amo alguém, mas minha expressão continua a mesma enquanto falo, sem sorrir ou estender a mão para o outro, a chance de, mesmo sendo a mais pura verdade, esta declaração não ser interpretada como verdadeira é bem grande.

Quanto mais conhecemos o outro, mais seremos capazes de “ler” suas expressões e com isso também seremos capazes de fazer maiores enganos quanto ao que o outro quer dizer. Por isso que amigos podem se machucar profundamente, casais tem uma chance enorme de se ferir ou mesmo familiares também tem esta possibilidade. Todos nos conhecem muito bem.

E então é melhor não se conhecer bem?

É claro que não. Este conhecimento e esta “leitura” da comunicação não verbal do outro é boa e importante, pois há o outro lado da moeda, quando basta um pequeno gesto para sabermos que o outro está feliz, ou que está apaixonado, ou que está em paz.

O que não podemos é nos fiar totalmente nesta “leitura” do outro, pois o que vai dentro do outro nós jamais poderemos saber a não ser que o outro fale para nós. Por exemplo, tem situações em que uma palavra, um gesto ou uma ocasião particular disparam em nós lembranças que, se forem boas, podem refletir uma alegria ou expressão de prazer, por outro lado, podem nos lembrar de coisas que machucam e isso, com certeza, terá reflexo nas expressões, o que pode não ter a ver com seu interlocutor, mas causar-lhe uma falsa interpretação de não aceitação.

Você já ouviu a expressão: “Eu sei exatamente o que você está pensando!” ou ainda “Eu pensei que você estava pensando isso de mim!” ou “Não precisa dizer nada, pois eu conheço esta cara!”. Todas são frutos de uma “leitura” do outro e isso é um perigo, principalmente quando as coisas não estão bem ou quando deixamos muitas coisas acumularem e então decidimos nos manifestar ao outro.

Descubram o idioma do outro. Muitas vezes “lemos” o outro pela forma como nós pensamos, pela forma como nós reagimos e não pela forma que o outro é e isso  sempre leva a desencontros.

É preciso dialogar. Não há outro caminho a não ser falar e escutar, ou seja, dialogar. Mas como?

Uma boa regra para o diálogo é dizer, inicialmente, somente sobre seus sentimentos. Não importa a intenção do outro, se falamos sobre nossos sentimentos o outro poderá compreender o que sua atitude causou em nós.

E o que são os sentimentos?

Sentimentos são manifestações espontâneas que temos a partir de estímulos externos. Se você está bravo ou brava e a outra pessoa sorri, isto causa uma grande indignação, talvez raiva, insegurança.

Se você escuta uma declaração de amor você fica feliz. Se seu marido chega tarde sem avisar, você se sente com medo pela violência de nossos dias. Etc.

Alegria, tristeza, medo, angústia, insegurança, são sentimentos que brotam em nós independentemente de nossa vontade. Há um estimulo e nós sentimos, só isso.

Por isso sentir não é bom nem mal. O que fazemos a partir do sentimento é que tem moral. Se, ao ficar com medo pelo marido chegar tarde sem avisar, a esposa desatar uma bronca sem limites, aí entra o erro. Se, ao ser fechado no trânsito e sentirmos uma tremenda raiva, formos atrás do infrator para “devolver a gentileza” aí estamos errados.

Então, manifestar o que sentimos é a chave do diálogo. E para facilitar identificar algo como sentimento é só usar a seguinte regra:

“Sinto-me feliz.”  Manifesta um sentimento.

“Sinto que você não me quer”. Manifesta um pensamento ou julgamento, pois dá para substituir o “sinto que” por “penso que”, “julgo que”.

Outra boa dica para o diálogo, principalmente quando parece que não acertamos na “leitura” do outro é escrever nossos sentimentos. É um exercício difícil para alguns, mas vale à pena tentar, pois quando escrevemos, não estamos olhando as expressões do outro e não corremos o risco de nos influenciarmos por isso.

O bom é levantar um tema e os dois escreverem por uns 10 minutos separados e depois cada um lê o que o outro escreveu e então partem para o diálogo. Leia duas vezes, se coloque no lugar do outro e então partam para o diálogo.

Tema: “Você chegar tarde sem me avisar.”

“Meu amor, sinto-me preocupada sem saber se houve alguma coisa com você. Fico vendo o jornal na TV e com tantas notícias de assaltos e assassinatos e fico angustiada..”

Durante o diálogo, não fujam do assunto principal e procurem terminar em 10, no máximo, 20 minutos.

Dialogar é sempre a saída para quem não quer desistir do outro. Dialoguem sempre.


Se beber, não case!

16 de setembro de 2011

Este é o título de um filme recente que me veio na cabeça quando pensei em escrever sobre a tomada de decisão de casar.

Em todos os cursos de noivos que eu e a Helô participamos, além de tentar passar o máximo de nossa experiência para que aquelas poucas horas ajudem os noivos se prepararem melhor para o casamento, eu sempre tenho o momento de “advogado do diabo” dizendo aos noivos que se eles têm alguma dúvida quanto à decisão de casar, por menor que seja, ainda há tempo, e é bem melhor terminar um noivado do que um casamento.

E por que eu faço isto?

Por que há inúmeras razões, descuidos ou mesmo forças externas que nos levam a tomar a decisão errada e o custo da tentativa e erro num casamento é altíssimo: emocionalmente para o casal, pior ainda se houver filhos e, é claro, nós cremos no matrimônio como um sacramento indissolúvel e, mesmo podendo ser declarado nulo pela Igreja em certos casos, isso não é fácil nem tampouco indolor.

E quais são as principais coisas a se olhar para dar uma avaliada na sua decisão?

Primeiramente é preciso consultar seu coração e responder honestamente: Você tem certeza que esta é a pessoa da sua vida? Que você está disposto (a) a enfrentar as dificuldades e amar mesmo nos dias em que você não gostar dela ou dele? (A pergunta não é se a pessoa não tem defeitos ou se você tem certeza do futuro que ninguém conhece, mas sim sobre o seu coração hoje!)

Se você titubear nesta resposta, por um pouquinho que seja… Não case!

Há tantas pressões internas e externas agindo em nós que, às vezes, nos iludimos ou ficamos cegos quanto à pessoa com quem estamos nos unindo, por exemplo:

A família adora fulano ou fulana! Isto é bom, mas não é suficiente. Jamais case com alguém porque é a melhor pessoa para todos. Só case se você achar que é “a pessoa” para você. Só você pode responder a esta questão, mais ninguém.

Uma vez uma filha minha perguntou como iria saber se ela tinha achado a pessoa certa, pois até aquele momento ela não tinha sentido que tinha amado alguém de verdade e nossa resposta foi simples, mas verdadeira: Você vai saber quando isso ocorrer.

Há quem resolva casar sem pensar muito porque está ficando para titia. Há quem resolva casar para sair de casa. Há quem queira dividir as despesas. Cuidado!!!

Outro ponto importante: Sexo antes do casamento cria um vínculo muito grande e, pela sua força natural, acaba por fazer com que se deixe de lado preocupações que deveriam preceder esta entrega completa de um para o outro.  E quantos casais ficam amarrados pelo sexo no namoro e no noivado, ficando cegos para o grande erro que estão cometendo com suas escolhas?

A pessoa que você escolheu tem pequenos deslizes de conduta?

Quando trata os pais? (Sendo estúpido demais, exagerando nas reações?)

 Quando dirige? (tentando levar vantagem sempre, sendo agressivo?)

 Nos estudos? (colando, copiando trabalhos, passando colegas para trás, não levando o curso a sério?)

Nos negócios? (fazendo pequenas trapaças ou desonestidades? Querendo subir a qualquer custo?)

Nas prioridades? (colocando o sucesso social e financeiro acima de estar com a família, participar da educação dos filhos, da conduta da casa?)

Dica: Ter uma lista de bons valores e prioridades mas em ordem diferente da do outro pode ser um grande problema em sua vida. É preciso alinhar os valores e prioridades antes de dar um passo como casar com alguém.

Atenção: Sinal vermelho!

Se você está casando pensando em mudar a pessoa depois do casamento ou esperando que  algo aconteça sozinho, não se iluda. Viver juntos traz uma série de descobertas do outro que já serão suficientes para se ter uma boa fase de adaptação, não comece uma vida com “coisas a resolver depois”.

A fé é um ponto importante a ser compartilhado entre o casal. Mesmo a Igreja admitindo casamentos entre pessoas de religiões diferentes, pois não podemos condenar ninguém por não ser da nossa religião, é tremendamente mais fácil quando compartilhamos nossa fé e, principalmente, vivemos juntos essa fé.

Por isso eu sempre coloco aos noivos a pergunta: quando foi a última vez que eles foram à missa juntos? Quando se confessaram? Quantas vezes eles tem se ajoelhado diante do sacrário para adorarem juntos Jesus na eucaristia?  É preciso alimentar o amor com a melhor fonte de amor que é o próprio Deus.

Pode parecer que isso não seja importante, mas é a fé que sustenta muitos casais em momentos de dificuldades externas ou do próprio relacionamento do casal.

“… eu te prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.”

Pessoal! A promessa do casamento é um voto que você fará ao outro e somente a ele ou ela, sobre a sua decisão incondicional pelo outro. Não há “se”, não há “porém”, não há condicionais. Você estará jurando ao outro que aquela decisão é madura e definitiva.

Então faça com certeza no coração ou não faça!


Sem mas, nem porquês

22 de junho de 2011

 

Viver um amor “sem mas, nem porquês”, é algo que podemos desejar, mas é irreal. É claro que não podemos viver eternamente nos mas e nos porquês, mas não é possível amar sem tê-los. Isso não quer dizer que não possamos amar irrestritamente alguém, ou sermos amados por alguém como somos e não pelo que fazemos ou pelo que fizemos, isso é perfeitamente possível. E o amor verdadeiro, quer queiramos ou não tem seus “mas e porquês”, pois o amor tem que fazer o outro crescer.

Podemos entender a pedagogia de Deus ao revelar seu amor por nós em várias passagens do evangelho:

Ele levantou-se e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Ninguém, Senhor!” Jesus, então, lhe disse: “Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais”. (Jo 8,10-11).

Jesus usou um “mas” quando disse “e de agora em diante”, mas foi uma condição para que a misericórdia de Deus permanecesse na vida daquela mulher. Jesus não se fixou no que ela fez, mas olhou seu potencial e deu o caminho para ela viver na graça.

Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Foi hospedar-se na casa de um pecador!” Zaqueu pôs-se de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais”. Jesus lhe disse: “Hoje aconteceu a salvação para esta casa, porque também este é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. (Lc 19, 7-10)

Na história de Zaqueu, Jesus provoca a conversão, ou seja, a mudança de vida, a partir da aceitação daquele publicano, que nada mais era do que o cobrador de impostos da época de Jesus e por isso odiado por todos, já que coletava impostos para os invasores romanos. E a aceitação de Jesus provocou em Zaqueu a vontade de reparar seus erros e corrigir suas condutas.

De fato, se vós perdoardes aos outros as suas faltas, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. Mas, se vós não perdoardes aos outros, vosso Pai também não perdoará as vossas faltas. (MT 6,14-15)

Ao explicar a oração do Pai Nosso Jesus coloca um “mas” como condição para sermos perdoados. Uma condição para atingirmos a plenitude do amor, um mas que constroi.

Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação; mas não te apresses em confiar nele. Porque há amigo de ocasião, que não persevera no dia da desgraça. Há amigo que passa a inimigo, e que revela as desavenças contigo. Há amigo que é companheiro de mesa mas que não persevera no dia da necessidade. Quando fores bem sucedido, ele será como teu igual e, sem cerimônia, dará ordens a teus criados. Mas, se fores humilhado, ele estará contra ti e se esconderá da tua presença. Afasta-te dos teus inimigos e toma cuidado com os amigos. Amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro. Ao amigo fiel não há nada que se compare, pois nada equivale ao bem que ele é. (Eclo 6, 7-15)

O livro do Eclesiático nos dá uma série de conselhos sobre nosso relacionamento humano e lá também não faltam alguns mas e porquês.

A mensagem que dele ouvimos e vos anunciamos é esta: Deus é luz e nele não há trevas. Se dissermos que estamos em comunhão com ele, mas caminhamos nas trevas, estamos mentindo e não praticamos a verdade. Mas, se caminhamos na luz, como ele está na luz, então estamos em comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado, estamos enganando a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se reconhecemos nossos pecados, então Deus se mostra fiel e justo, para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que nunca pecamos, fazemos dele um mentiroso e sua palavra não está em nós. (I Jo 1,5-10)

 

Em minha experiência como pai, muitas vezes, vi meus filhos reclamarem das eternas repetições, advertências e recomendações  que davam a impressão que eu não confiava neles. Mas é preciso sempre ter em mente que a nossa cultura atual está sempre recomendando coisas ruins, contrárias à vontade de Deus, nas novelas, nos ambientes de trabalho, nas revistas, nos filmes, nos colegas, etc. e continuamos a ouvi-los e se ninguém disser nada em contrário, acabamos por aceitá-las como “normais”.

E sabe por quê?

Enfim, fortalecei-vos no Senhor, no poder de sua força; revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do diabo. Pois a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço. Por isso, protegei-vos com a armadura de Deus, a fim de que possais resistir no dia mau, e assim, empregando todos os meios, continueis firmes. Ficai, pois, de prontidão, tendo a verdade como cinturão, a justiça como couraça e os pés calçados com o zelo em anunciar a Boa-Nova da paz. Em todas as circunstâncias, empunhai o escudo da fé, com o qual podereis apagar todas as flechas incendiadas do Maligno. Enfim, ponde o capacete da salvação e empunhai a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Com toda sorte de preces e súplicas, orai constantemente no Espírito. Prestai vigilante atenção neste ponto, intercedendo por todos os santos. (Ef 6,10-18)

Fim


Desarmado

13 de junho de 2011

Sempre tive comigo que o estado interior melhor possível é  estar desarmado. Desarmado das minhas máscaras, dos meus papeis e do meu medo sobre o que vão pensar de mim. Desarmado como a criança que brinca sem medo de parecer ridícula, quando se expressa, quando sorrí, quando corre, quando demonstra carinho por quem nunca viu antes  ou mesmo quando chora.

E como é bom poder estar assim, ter onde estar assim e ter com quem estar assim.

E nós desprezamos tanto estes momentos, ficando na frente da televisão, olhando nossos computadores, smartphones, tablets ou revistas e esquecemos que sozinhos até podemos ficar desarmados, mas com alguém é que este dasarme atinge a plenitude.

E como precisamos alguém que nos permita estar desarmados ao seu lado! Alguém que possamos confiar até nossas fraquezas, alguém com quem possamos fechar os olhos e deixar que nos observe. E é uma experiência interessante, fechar os olhos diante de alguém de deixá-lo nos observar ou nos tocar.

É como se deixar adormecer ao lado de quem se ama.

Esses momentos podem surgir, no silêncio de um olhar, numa refeição compartilhada com a família ou com amigos, na retribuição de um sorriso sincero. Esses são momentos de liberdade e precisamos valorizá-los e buscá-los.

E como é bom quando podemos ter um destes momentos com Deus. Quando nos desarmamos e nos entregamos nas mãos dele, não com palavras, ou meros ritos, mas do fundo do nosso coração. E isso não é tão fácil de acontecer, pois o pecado é como uma máscara que se antepõe e turva nossa relação com Deus. Mesmo Ele nos vendo, em nossa totalidade, mesmo Ele conhecendo nossas fraquezas e também nossas qualidades, Ele precisa do nosso sim. Ele precisa que criemos o clima. Ele não quer que sejamos perfeitos para Ele, pelo contrário, mas Ele quer nosso consentimento para poder cuidar de nós. 

Deixe Deus cuidar de você. Deixe que outras pessoas sejam esse toque de Deus em sua vida. Desarme-se.


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