Uma colega que estuda marketing, sabendo da minha ligação com a Igreja, me pediu algo sobre marketing nas igrejas para que fosse utilizado em um trabalho para a faculdade. Então eu comecei a pensar no assunto e com meus poucos conhecimentos de marketing tentei fazer uma associação de uma definição (meio batida) de marketing mix, a dos 4 Ps ( product, price, place, promotion ): Produto, Preço, Distribuição e Comunicação , com a atuação da Igreja. Quando faço a comparação não pense o leitor que eu vejo a atuação da Igreja como algo mercantilista ou diminuo sua função, ao contrário, procuro utilizar uma análise de uma área de estudos sérios para uma reflexão sobre a nossa Igreja.
· Sob o aspecto do produto podemos dizer que o que a Igreja tem a oferecer é vida, “vida em abundância”, vida eterna na presença de Deus, sem fome , sem sofrimento, sem a morte . Com certeza é um excelente produto e não há quem não o queira.
· Sob o aspecto do preço temos que admitir que não é muito barato, já que exige algum sacrifício, pois ser católico não é fácil e nem pretende ser, mas dado o benefício do produto e o diferencial da empresa que o oferece vale a pena pagar o preço “da porta estreita”, mesmo que isto exija de nós bastante trabalho. Quando menciono diferencial da Igreja Católica falo de unidade, dos sacramentos, de Maria, da Tradição e tudo mais que é a riqueza do catolicismo.
· Quanto à distribuição, pode-se dizer que a Igreja é a mãe da globalização e está em todos os lugares com seu produto. Sua presença nas cidades é sempre privilegiada, estando em geral nas melhores praças ou avenidas. Internamente a Igreja é muito bem articulada com poucos níveis hierárquicos, mesmo sem ter passado por um processo recente de reengenharia, pois sua estrutura enxuta é milenar. Assim sendo, as decisões saem da cúpula e chegam à base com bastante rapidez. Vejam o exemplo do Catecismo da Igreja Católica, resume de forma clara a doutrina, e estava disponível em quase todo o mundo, nas mais diversas línguas, praticamente na data o seu lançamento.
· Quanto à comunicação acredito que em vários aspectos não estamos indo tão bem. A Igreja tem se movimentado bastante para analisar e melhorar esta parte de sua missão, pois o pedido de Cristo foi que anunciássemos o evangelho a todas as criaturas, Ele pediu explicitamente a comunicação. E a seguir vamos falar de vários pontos que considero importantes sobre esta comunicação.
Comunicação de massa ou pessoal
O produto que nós, como Igreja, vendemos é um produto imaterial e que tem um caráter exclusivamente particular e não coletivo, portanto a comunicação que realmente tem efeito para se vender este produto é a comunicação pessoal. A comunicação de massa para se vender vida eterna pode somente criar uma pré-disposição para se comprar o produto, mas a decisão tem que ser estimulada por uma comunicação pessoal e bem feita. E nisto, a boa nova é que a Igreja tem recursos de sobra e precisa valorizá-los, por exemplo, os Sacramentos, sinais sensíveis da Graça de Deus, e que definem momentos de comunicação únicos entre e as pessoas e a Igreja , entre as pessoas e Cristo. No Batismo, na Comunhão, na Penitência, no Crisma, no Matrimônio, na Ordem, na Unção dos Enfermos em todos os sacramentos, o rito, o símbolo, o sacerdote ou ministro são formas de comunicação entre Deus e o cristão.
Nossa Igreja também é riquíssima em outros ritos e formas que devem ser valorizadas e não banalizadas como muitas vezes se vê. Por exemplo, a perda do sentido do sagrado. A vida eterna não se vê, pelo menos agora, Deus na sua sabedoria deixou-nos a Eucaristia, para nos assegurar que já podemos estar perto dele desde já, mas vê-se pessoas andando pelos altares como se no sacrário só houvesse um símbolo cristão e não a presença viva de Deus na Eucaristia. Não se dobra os joelhos ao passar diante de um sacrário. Não se faz mais o sinal da cruz diante de uma Igreja. Perde-se portanto a oportunidade de dizer ao nosso cliente que o produto que ele procura está ali, que ele pode entrar e procurar que vai encontrá-lo. Não se vive com tanto fervor os momentos litúrgicos da Igreja, que nos sintonizam com a mensagem de Cristo. O Natal agora é o momento dos presentes, a Páscoa é o bacalhau e o ovo de chocolate, o Pentecostes não é nada! Quanta riqueza de comunicação se deixa para trás quando não sabemos mais o sentido de tais datas.
Um outro exemplo de perda de oportunidade de cativar o nosso cliente são as missas de sétimo dia, hoje incluídas em missas comuns como mais uma mera intenção. O cristão que encomenda uma missa de sétimo dia quer consolo, quer dizer para si mesmo que a morte dói para quem ficou, mas quem foi finalmente obteve o produto desejado por toda uma vida. Como passar esta comunicação misturando-se as intenções do aniversário da dona Glorinha, pelo novo emprego do seu José e pela restauração da saúde de Filomena ! Outro caso gritante é o Sacramento da Reconciliação ou Confissão. Com que sabedoria Deus inspirou este sacramento e como ele é negligenciado! Vejam bem, a maior dificuldade não é aceitarmos o perdão de Deus e sim o nosso próprio perdão. Precisamos confessar os nossos pecados e receber uma penitência, isto nos ajuda a crer no perdão e abre espaço para a ação da Graça. E também não se pode esquecer o sacerdote que, ao confessar, fecha os olhos e se limita a dar a absolvição no final da confissão. Que o perdão vale, para Deus vale; mas obteve todo o sentido para o cristão?- “Ele nem fez cara de espanto com o que eu disse ! “ Eu já ouvi de um leigo após a sua confissão.
O comunicador
Aqui quero abrir um parêntese para falar da importância dos sacerdotes nesta comunicação pessoal. Muitos se especializaram na comunicação de massa, fugindo da comunicação pessoal, sem saber como tem peso suas manifestações ao povo. Como é bom ser acolhido pelo padre na porta da Igreja com um cumprimento cordial. Como é bom iniciar uma celebração da Eucaristia com um sorriso do sacerdote e como é saudável para um fiel tê-lo como diretor espiritual. Como nos orgulhamos ao encontrar “o nosso padre” num banco ou num supermercado e podermos identificá-lo como padre pela sua roupa. No tempo da ditadura no Brasil, os militares se orgulhavam de desfilar em qualquer lugar com seus uniformes para identificá-los como detentores do poder ou por simples orgulho do que faziam, hoje em dia com suas corporações desprestigiadas , a coisa mais comum é ver oficiais superiores de terno e gravata nos mais diversos eventos fora dos quartéis. Será que os padres não se orgulham mais do que fazem ? ( fecha parêntese )
A mensagem
A mensagem, para o marketing, deve informar ou persuadir o consumidor de que o produto da empresa proporciona maior satisfação. Na Igreja usa-se a Palavra para informar , mas as atitudes não persuadem ninguém. Por exemplo, o excesso de respeitos humanos que tomou conta de muitos em nossa Igreja. O nosso consumidor quer ouvir “que o seu sim seja sim e o seu não seja não” e ver atitudes firmes e não de tibieza ou medo de perder o seu consumidor. Quando relativiza-se o pecado, com a idéia que a sociedade força ao pecado, que os tempos são outros e que a sociedade deve evoluir, espanta-se um consumidor ávido por alguém que diga o que é certo e o que é errado, que mostre que só existe um caminho para chegar ao Pai e este caminho exige uma conduta que não é fácil.
A mensagem nunca pode ser conflitante com as crenças do consumidor, por exemplo, ao deturpar a opção preferencial pelos pobres, muitos decretaram a exclusão preferencial dos ricos ! É rico, já está no inferno. Isto tem levado muita gente para longe da Igreja, gente boa e gente com poder para melhorar a condição dos pobres.
A mensagem também deve ter as informações que interessam o consumidor senão correm o risco de só provocar bocejos e desistências. Imagine que eu queira vender a idéia que o carro que eu fabrico é melhor porque tem freios ABS. E vou falando ao consumidor comum o seguinte: “O sistema anti-bloqueio do meu novo carro é controlado por um processador digital de sinais que através de um sistema de transdutores e acionadores mantém o controle da frenagem do carro, não permitindo que o coeficiente de atrito dinâmico que é menor que o estático etc. etc. etc…” ou bastaria dizer que é um sistema que faz o carro parar de forma mais eficiente principalmente em emergências e condições difíceis de dirigir. Em nossa comunicação na Igreja há muita explicação teórica e pouca aplicação prática. “O que eu faço com o meu marido que não quer vir a Igreja ?” ; “Como eu conseguirei deixar este vício.” ; “Como eu poderei perdoar o pai que nos abandonou quando criança?” ; “O que tem a ver o meu trabalho com a vida cristã ?” ; “Como eu falo de Deus ao meu filho adolescente? “.
O meio
A Igreja sempre teve grandes oradores e pregadores em toda a sua história. Mas hoje em dia o forte da Igreja é a comunicação impressa. Grandes textos , excelentes documentos, páginas e mais páginas de rica teologia, exegese e tudo mais. Só que isto está tão forte que quando muitos padres fazem suas homilias eles as lêem tornando-as páginas faladas que não transmitem vida, não atraem o consumidor para o seu produto. Quando a Igreja se aventura num programa de rádio ele tem a forma de livro de doutrina, ou ,podemos dizer assim, homilias eletromagnéticas, muitas pregações e pouca coisa atrativa ao ouvinte, na televisão é a mesma coisa, discursos com pessoas que não tem nada de comunicadores, debates que mais parecem as cansativas reuniões de conselho paroquial e programas que pouco tem a ver com a expectativa dos telespectadores. Aqui vale falar de uma excessão que é a Canção Nova, onde os meios de comunicação são utilizados de forma eficaz e séria.
Vejam como se pode desperdiçar uma mina de ouro em comunicação: os Santos, que deveriam ser os modelos dos que já chegaram lá e principalmente os modelos de como chegar lá. Veja como o capitalismo norte-americano venera seus milionários, todos são admirados pelas suas conquistas, mas a mensagem básica desta veneração é : “Ele começou do nada e construiu este império !” , isto faz com que todo americano acredite que pode chegar lá. “Ele era como eu, tinha uma vida comum. Eu também chegarei lá.” Nossos santos são muito mais do que isto, mas são colocados a uma distância tão grande do fiel comum que muitos acreditam não poder alcançá-los nunca. E nisto o nosso Papa João Paulo II tem sido pródigo, com suas inúmeras beatificações e canonizações , em número nunca visto antes, ele quer mostrar ao mundo que os santos estão aí são gente comum que escolheu o caminho de Cristo e que deve ser seguida .
E por falar no Papa, acho que o mais extraordinário e positivo na comunicação de nossa Igreja era a figura do Papa João Paulo II, ele comunicava com sua imagem, com seus textos, com seus gestos. Tinha a coragem de pedir perdão a toda uma humanidade atônita, viajava constantemente falando ao seu “público consumidor” e a um mercado potencial, conhecendo suas necessidades ; e tudo sem se importar com a fraqueza física que o abatia, ele transmitia uma fortaleza que só podia ser alimentada pelo céu. Um homem reconhecido por toda a humanidade, de cristãos e não cristãos como um dos mais notáveis de nossa história recente, senão de toda a história.
O efeito
O que se espera como efeito da comunicação da Igreja, ou seja, de todos nós é que possamos oferecer ao Pai cada vez mais almas que escolheram “nosso produto” e querem ser propagadores desta boa nova que é Jesus.