Outro dia faleceu o pai de um amigo meu e ao encontrá-lo no velório ele me falou que sentia uma sensação esquisita, difícil de traduzir em palavras, mas fácil de compreender para quem já passou por isso .
Este fato me fez parar e pensar um pouco na morte. Esta indesejável companheira de todos nós, que não gostamos sequer de pensar que ela existe, menos ainda que é inevitável.
Para quem fica:
Com certeza a morte de alguém que amamos nos faz parar e pensar na brevidade de nossas vidas e na fragilidade deste nosso corpo mortal. Mas também nos coloca diante de uma realidade que normalmente insistimos em negar para nós mesmos que é a total inutilidade das coisas materiais diante da morte. Não podemos suborná-la para que venha depois, ou mesmo para que ela se arrependa e nos dê uma outra chance. Não levaremos nada do que muitas vezes consumiu toda uma vida para se acumular e não nos colocará em situação privilegiada ao chegarmos do outro lado.
Normalmente nós que ficamos, tentamos avaliar o que ficou daquele que partiu. Onde está a verdadeira herança que alguém deixa após sua partida? E a resposta vem lentamente, dia após dia . Muitas vezes esta herança está em nós mesmos, quando nos deparamos agindo da forma que esta pessoa agia ou defendendo valores com as palavras que um dia ouvimos dela. Eu mesmo , agora como pai, muitas vezes me olho no espelho e vejo o quanto o meu pai me deixou; uma riqueza sem medida nos moldes materiais, mas de inestimável valor para mim e para meus filhos. Da mesma forma, é normal ver a comoção de pessoas estranhas que de certa forma foram tocadas pela conduta ou pelas palavras de alguém que perdemos e então percebemos o que realmente ficou. E não podemos esquecer da maior riqueza que podemos receber aqui nesta terra que é a Boa Nova de Jesus. Uns recebem de seus pais, outros de seus avós, outros ainda de um sacerdote realmente santo que soube como transmitir esta realidade maravilhosa que é a presença de Deus no meio de nós.
A dor:
Não dá para negar que a morte de alguém dói em nós. Nos deixa meio sem rumo por uns tempos e precisamos encarar esta dor para continuarmos. Precisamos encarar este tempo de separação entre a morte e o reencontro como um tempo de crescimento, sempre sustentado pela esperança da Vida Eterna. Por isso o luto é necessário. Chorar, vestir-se de forma diferente do usual, falar de quem partiu nos ajuda psicologicamente, a encarar a perda de alguém que se foi e a retomada de nossas vidas sem ele. Os antigos costumes de velório, visitas de condolências, missas de sétimo dia e de um mês de falecimento têm uma grande importância principalmente para os que ficam e tem que “digerir” a perda de alguém.
Nunca achem que é bobagem a viuva ficar lembrando do seu marido enquanto vivo; ou da mãe lembrando do seu filho que se foi, falar é uma das formas de nos convencermos que está tudo acabado, pelo menos por aqui .
A esperança:
A doutrina cristã é fortíssima na esperança de uma vida eterna sem sofrimento, sem doenças, sem fome, sem separações; tudo atestado por Jesus ressuscitado , fonte da nossa fé e esperança que a separação causada pela morte é temporária.
Mas as vezes, mesmo nós cristãos temos dúvidas se nós mesmos iremos para o céu, ou mais ainda, se nossos parentes mortos alcançaram a salvação. Estas dúvidas por vezes nos corroem, mas novamente devemos confiar somente no amor de Deus. O julgamento de Jesus é perfeito, não se baseia , nem se baseará nos nossos julgamentos limitados. Só ele é capaz de saber o que havia no coração de cada um quando foi chamado. E Ele mesmo, Jesus, nos mostrou o caminho ao dizer para o ladrão ao seu lado na cruz, criminoso confesso e arrependido, que no mesmo dia estaria com ele no céu. Ou seja, nada do que vemos de uma pessoa pode ser tão claro como a visão que Jesus tem. Ninguém neste mundo pode se esquecer da infinita misericórdia de Deus por nós.
Celebração:
Algo que sempre me impressionou foram as cenas de funerais americanos onde o cortejo fúnebre era acompanhado de uma banda que na ida entoava músicas tristes , mas na volta tocavam músicas alegres. Também me intrigava o fato de se comemorar as datas sobre santos no dia de sua morte. Hoje eu compreendo que na morte, nesta passagem difícil, finalmente chegaremos a plenitude do amor de Deus, chegaremos a sua presença, um lugar que todos nós, os vivos deveríamos estar ansiosos por estar durante toda a nossa vida aqui na terra. Lutamos aqui nesta vida por ter bem estar, por vencer as doenças, por parar o tempo , por gozar a vida e na eternidade finalmente teremos tudo isto em abundância, mas “morremos” de medo de encarar esta realidade.
Com certeza Deus nos criou para a eternidade, e este germe de vida em nós não combina com a morte e por isso é natural que não a desejemos e as vezes tenhamos até medo dela. Mas para viver plenamente esta vida total com Deus é preciso morrermos. Exatamente como Jesus nos diz sobre a semente que se não cair na terra e não morrer não poderá germinar e dar frutos. “Por isso estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor.” II COR 5,6
Escrito por armandoporto
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