Esquisita

Dezembro 16, 2007

Outro dia faleceu o pai de um amigo meu e ao encontrá-lo no velório ele me falou que sentia uma sensação esquisita, difícil de traduzir em palavras, mas fácil de compreender para quem já passou por isso .

Este fato me fez parar e pensar um pouco na morte. Esta indesejável companheira de todos nós, que não gostamos sequer de pensar que ela existe, menos ainda que é inevitável. 

Para quem fica:

             Com certeza a morte de alguém que amamos nos faz parar e pensar na brevidade de nossas vidas e na fragilidade deste nosso corpo mortal. Mas também nos coloca diante de uma realidade que normalmente insistimos em negar para nós mesmos que é a total inutilidade das coisas materiais diante da morte. Não podemos suborná-la para que venha depois, ou mesmo para que ela se arrependa e nos dê uma outra chance. Não levaremos nada do que muitas vezes consumiu toda uma vida para se acumular e não nos colocará em situação privilegiada ao chegarmos do outro lado.

             Normalmente nós que ficamos, tentamos avaliar o que ficou daquele que partiu. Onde está a verdadeira herança que alguém deixa após sua partida? E a resposta vem lentamente, dia após dia . Muitas vezes esta herança está em nós mesmos, quando nos deparamos agindo da forma que esta pessoa agia ou defendendo valores com as palavras que um dia ouvimos dela. Eu mesmo , agora como pai, muitas vezes me olho no espelho e vejo o quanto o meu pai me deixou; uma riqueza sem medida nos moldes materiais, mas de inestimável valor para mim e para meus filhos. Da mesma forma, é normal ver a comoção de pessoas estranhas que de certa forma foram tocadas pela conduta ou pelas palavras de alguém que perdemos e então percebemos o que realmente ficou.  E não podemos esquecer da maior riqueza que podemos receber aqui nesta terra que é a Boa Nova de Jesus. Uns recebem de seus pais, outros de seus avós, outros ainda de um sacerdote realmente santo que soube como transmitir esta realidade maravilhosa que é a presença de Deus no meio de nós. 

A dor: 

            Não dá para negar que a morte de alguém dói em nós. Nos deixa meio sem rumo por uns tempos e precisamos encarar esta dor para continuarmos. Precisamos encarar este tempo de separação entre a morte e o reencontro como um tempo de crescimento, sempre sustentado pela esperança da Vida Eterna. Por isso o luto é necessário. Chorar, vestir-se de forma diferente do usual, falar de quem partiu nos ajuda psicologicamente, a encarar a perda de alguém que se foi e a retomada de nossas vidas sem ele. Os antigos costumes de velório, visitas de condolências, missas de sétimo dia e de um mês de falecimento têm uma grande importância principalmente para os que ficam e tem que “digerir” a perda de alguém.

             Nunca achem que é bobagem a viuva ficar lembrando do seu marido enquanto vivo; ou da mãe lembrando do seu filho que se foi, falar é uma das formas  de nos convencermos que está tudo acabado, pelo menos por aqui . 

A esperança:

             A doutrina cristã é fortíssima na esperança de uma vida eterna sem sofrimento, sem doenças, sem fome, sem separações; tudo atestado por Jesus ressuscitado , fonte da nossa fé e esperança que a separação causada pela morte é temporária.

             Mas as vezes, mesmo nós cristãos temos dúvidas se nós mesmos iremos para o céu, ou mais ainda, se nossos parentes mortos alcançaram a salvação. Estas dúvidas por vezes nos corroem, mas novamente devemos confiar somente no amor de Deus. O julgamento de Jesus é perfeito, não se baseia , nem se baseará nos nossos julgamentos limitados. Só ele é capaz de saber o que havia no coração de cada um quando foi chamado. E Ele mesmo, Jesus, nos mostrou o caminho ao dizer para o ladrão ao seu lado na cruz, criminoso confesso e arrependido, que no mesmo dia estaria com ele no céu. Ou seja, nada do que vemos de uma pessoa pode ser tão claro como a visão que Jesus tem. Ninguém neste mundo pode se esquecer da infinita misericórdia de Deus por nós. 

Celebração:

             Algo que sempre me impressionou foram as cenas de funerais americanos onde o cortejo fúnebre era acompanhado de uma banda que na ida entoava músicas tristes , mas na volta tocavam músicas alegres. Também me intrigava o fato de se comemorar as datas sobre santos no dia de sua morte. Hoje eu compreendo que na morte, nesta passagem difícil, finalmente chegaremos a plenitude do amor de Deus, chegaremos a sua presença, um lugar que todos nós, os vivos deveríamos estar ansiosos por estar durante toda a nossa vida aqui na terra. Lutamos aqui nesta vida por ter bem estar, por vencer as doenças, por parar o tempo , por gozar a vida e na eternidade finalmente teremos tudo isto em abundância, mas “morremos” de medo de encarar esta realidade.

             Com certeza Deus nos criou para a eternidade, e este germe de vida em nós não combina com a morte e por isso é natural que não a desejemos e as vezes tenhamos até medo dela. Mas para viver plenamente esta vida total com Deus é preciso morrermos. Exatamente como Jesus nos diz sobre a semente que se não cair na terra e não morrer não poderá germinar e dar frutos.  “Por isso estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor.” II COR 5,6 


CONVERSA DE VELÓRIO

Dezembro 16, 2007

Pode parecer um título colocado só para chamar a atenção do leitor, e também é, mas na realidade não passa da mais pura realidade do que me aconteceu a alguns dias atrás…

            Estávamos mudando a empresa de prédio, eu havia ficado no prédio antigo para acabar de desligar os cabos de rede de computadores e de telefonia enquanto os outros tratavam de arrumar as coisas no novo local da empresa. Eu estava isolado do mundo, não haviam mais telefones ligados, meu celular estava no carro e a porta do escritório estava fechada pois eu lá estava sozinho. Sem saber bem o por que, me deu vontade de ligar para casa; procurei ver se em alguma sala tinha ficado um aparelho telefônico, e logo eu achei um. Procurei a entrada das linhas telefônicas do escritório e fiz uma ligação provisória para chamar em casa. Mal tocou o telefone, minha esposa atendeu aflita dizendo que eu precisava ir para casa correndo, pois havia falecido um tio meu, irmão do meu pai. Lá fui eu então, correndo para casa para irmos ao velório.

              Chegamos ao velório, o que eu acho um momento útil para os que ficam pois ajuda a absorver o impacto da morte de alguém que se ama, mas não vamos falar disso agora. Eu não sou muito bom com palavras nestes momentos; entrei, cumprimentei minha tia, meus primos e daí começou aquele momento social de encontro de familiares que só se encontram nestas ocasiões. Após algumas atualizações de como estavam os tios, primos e sobrinhos, sentei ao lado de um tio não muito cristão.

Este tio tem uma enorme dificuldade de lidar com estes momentos e lá me confidenciou:  “Que coisa chata, tchê. Quando seu pai morreu eu já achei chato prá burro, agora com seu tio é a mesma coisa.” Esta confissão, longe de ser uma declaração de descaso pelo ocorrido, era sim um inconformismo com algo que ele, na sua pouca fé, não sabia como encarar. Tanto que enquanto não foi embora dali, afirmando que não iria ao enterro, não sossegou.  Mais adiante eu voltarei a comentar este fato. 

Passados estes momentos tive a oportunidade de sentar com meu primo, filho do falecido, que me falou que tinha várias coisas para me perguntar sobre fé. Neste momento eu pensei no que poderia vir pela frente… Mas não foi nada de especial, primeiro ele me questionou sobre o que eu achava do Chico Xavier, aquele famoso medium espírita. Seriam os espíritos que passariam seus textos psicografados ou demônios como havia falado um crente amigo seu ? O que há de errado num homem que prega o bem como ele ? E eu sei quantos de nós católicos não temos estas dúvidas e as vezes não perguntamos para esclarecê-las. Primeiro tive que colocar que o espiritismo é uma seita que fere frontalmente princípios do catolicismo e portanto são doutrinas contrárias, por exemplo, o tema da reencarnação. A reencarnação para o aprimoramento do espírito tira todo o sentido do sacrifício de Jesus, que é Deus feito homem e morto para nos salvar de forma gratuita, total, única e definitiva. Como a misericórdia de Deus é infinita e gratuita, nenhum ser humano pode merecer, por seus feitos a sua  salvação, Deus a dá por que quer, por puro amor. Deus perdoa totalmente o homem que se arrepende e pede perdão, não é necessário voltar a esta vida para consertar o que se fez de errado. 

O segundo ponto é que está na Bíblia que não é possível que ninguém que morreu volte ou se comunique com os vivos, e está realmente escrito que se chamarem os espíritos, quem virá serão os espíritos maus. Portanto, não é possível um cristão dar crédito ao que um médium diz ou escreve, por melhor que seja sua intenção. Leia Lev  20,27 ; Dt 18, 10-; Ecle 9,10; Mt 13,30; Mt 25,1-30. 

Outro assunto que logo em seguida fui questionado foi a perda de fiéis da Igreja Católica. O que eu confirmei afirmando que a Igreja também se preocupa com isto e que eu tenho certeza que o grande problema é a qualidade da comunicação que a Igreja oferece aos seus fieis. E eu explico melhor afirmando que nós católicos temos a maior riqueza de conteúdo, de ritos e principalmente a herança apostólica que nos une a Cristo desde sua vinda ao mundo como homem até hoje, mas tem muita gente que está sabendo se comunicar com o povo melhor que nós católicos. Usam as técnicas recentes de comunicação, ou simplesmente falam do amor de Jesus, o que muitos de nós nos esquecemos mergulhados em teologias e pastorais (que em si não tem nada de mal ).

Eu sei que este assunto provoca reações, mas o leitor que não se ofenda, veja o exemplo da TV; independente do conteúdo, não é difícil admitir que a nossa Rede Vida deixa muito a desejar comparada com uma TV Record ou mesmo para programas independentes de outras igrejas evangélicas, sem falar na forma de receber os fieis nas igrejas, na clareza das homilias etc..

Com certeza estamos reagindo e graças a Deus o Espírito Santo toca o coração de um Pe. Marcelo, que quer gostemos ou não do seu estilo, temos que admitir que é um grande comunicador da nossa Igreja. Se nós temos a boa nova, precisamos contá-la bem aos nossos irmãos, mais do que isto, vivê-la bem antes de comunicá-la. Mais adiante este primo me fez uma declaração surpreendente. Ele só não virou crente porque não admitia excluir Nossa Senhora de suas devoções. Que maravilha a atuação de nossa Mãe ! E foi justamente a consciência do lugar especial que Maria tem junto de Deus que o manteve na fé católica. Conversamos como Maria, não sendo de natureza divina, certamente estaria muito perto de Deus, com Jesus, intercedendo por nós. Quem disse que ela não ajuda a Jesus com seu rebanho? Novamente retomamos o assunto da perda de fieis e entramos no tema da política. O que, para ele, teria sido o motivo de afastamento de muitos da Igreja. Novamente eu tive que concordar explicando. Concordar porque sei que houve e ainda há alguns desvios e pregação puramente social em detrimento da mensagem cristã e isto não é bom; e explicando porque a Igreja age, muitas vezes em silêncio, para corrigir tais distorções, aqui e acolá.

A doutrina social da Igreja é riquíssima e muitas vezes se antecipa aos modismos do politicamente correto de hoje em dia, mas a obrigação da atuação política cabe ao leigo, ao sacerdote cabe orientar os fieis segundo a doutrina católica. Se um candidato é co-responsável pelo estado de miséria que existe hoje no Brasil, o católico tem que pensar nisto antes de votar; se a candidata é a favor do aborto e casamento de homossexuais, temos que pensar que são princípios contrários a nossa doutrina católica, e assim por diante, cada um decide por si. E quem quiser mudar este estado de coisas se organize, seja candidato, apoie um que realmente seja cristão. 

Depois fomos ao enterro, e diante do túmulo, naqueles momentos em que o coveiro trabalha fechando o túmulo, uma tia minha, com os olhos cheios de lágrimas, me pergunta: “E depois disto, Mando, o que acontece?” E aquilo me encheu de tristeza. Ver a angústia da pergunta, quase que um questionamento se haveria um reencontro. Eu respondi que depois disto há o céu. Um pouco simples a resposta mas foi o que saiu. E falei ainda que se não tivéssemos fé, entraríamos em parafuso ao ver um irmão sendo enterrado, pensando na separação definitiva e não temporária como cremos. Só a fé alimenta a esperança do reencontro, da vida eterna, da felicidade sem fim. E aqui eu lembrei do relato do tio que não queria ver o enterro e como a fé é importante nestes momentos. 

E para terminar tenho que registrar o  maior momento de fé que presenciei neste evento, e que foi o testemunho de minha prima, filha do falecido, cujo filho de seis anos, falecido, estava no mesmo jazigo onde estava sendo enterrado seu pai: “Eu não tenho muita preocupação com meu pai pois sei que lá, ele encontrará com a vovó, seu pai, e o meu filho, e que todos estarão unidos, esperando por nós.”