Boletim

Dezembro 16, 2007

Acabou o bimestre na escola e os dias que antecedem a entrega do boletim escolar são tensos. A perspectiva de umas notas baixas fazem com que certos olhares se tornem arredios e furtivos. Os irmãos aproveitam a fraqueza de uns e outros e fazem comentários jocosos, o que vira e mexe acaba em bate boca.

             Mesmo sem saber ao certo suas notas, a culpa de não ter estudado o suficiente fica estampada na face de cada um. E esta é a fase em que ficar sozinho no quarto escutando música ou até dormindo toda a tarde se torna uma ótima fuga ou saída para diminuir a angústia da espera.            

Chegou o dia . O primeiro impacto será mostrar as notas para a mãe na saída da escola. Na verdade não é nem preciso ler as notas, os irmão se encarregam de contá-las. Ai vem o primeiro sermão. É só um ensaio, o difícil será encarar o pai ao chegar do trabalho . Mais uma longa e terrível espera.            

E vem a entrega. Aquela folha de papel, que no meu tempo era uma caderneta com capa plástica e fotografia , parece ter uma tonelada de peso ( me desculpem os físicos pela tonelada de “peso”). Aquela cerimônia de estender os braços com a folha na mão, o olhar baixo e um misto de culpa e vergonha na expressão dão o tema e a motivação para um sermão:             -“Os pais tem toda as obrigações com os filhos, alimentar, educar , dar ensino religioso, colocar em boas escolas e os filhos só tem uma obrigação para com os pais : tirar boas notas na escola ! E o que é isto aí ?! “            

 Aplicadas algumas limitações de ficar o tempo que quiser no clube e tantas idas ao cinema, vamos ver o que acontece no próximo bimestre.             

Esta pequena narrativa, verídica, pode parecer mais uma vez, chover no molhado, eu mesmo passei por isso e meu pai dizia:” Você tem capacidade de ir melhor, eu não tive filho burro”. Isto quando as notas eram 7,0 e não 10,0! Mas ilustram bem como a culpa nos incomoda, afeta nosso comportamento e até nos afasta de quem nós amamos . E estes são exatamente os efeitos do pecado em nós. Há um Pai zeloso no céu que sabe o que é bom para nós, para o nosso futuro, para a nossa felicidade e ” nos manda estudar”. Nós os filhos,  malandros e preguiçosos , fingimos ter tudo sobre controle e “não estudamos “, e pecamos. 

Primeira fase: o incômodo “Eu sei que não deveria fazer isto, mas acabei fazendo , afinal ninguém é 100% santo. Pelo menos tão rápido . Todo mundo erra. Errar é humano “. E por aí seguem uma infinidade de justificativas que tentamos descobrir para nós mesmos, para abafar aquele incomodo trazido pelo pecado. E este incômodo é o nosso  “alarme contra roubos”, disparado pala nossa consciência .É  bom que ele esteja sempre ligado e que o ouçamos quando disparar ! 

Segunda fase: o comportamento O pecado tem a capacidade de afetar nosso comportamento. É difícil ser o mesmo com aquele incômodo nos chateando. Se pecado afeta alguém próximo, não conseguimos mais encará-lo. Nos isolamos, ou nos tornamos artificias . Muitas vezes o pecado não fica sozinho pois é impossível  escondê-lo  sem a mentira, outro pecado e daí começa a bola de neve.             Quando somos questionados sobre nosso comportamento até agredimos os outros com respostas ríspidas do tipo: “Não tenho nada e você não tem que se meter na vida dos outros! “ Pois o questionamento nos lembra de nossos erros. Em então já não somos mais os mesmos, o pecado marcou um ponto contra nós.  

Terceira fase: o afastamento E por fim o pecado nos afasta de quem amamos. Como disse antes, se o pecado afeta às pessoas próximas, o relacionamento vai se complicando  chegando até a destruí-lo totalmente. E com nosso relacionamento com Deus ocorre o mesmo. Nos sentimos envergonhados, paramos de orar pois nos sentimos indignos. A vontade de freqüentar a igreja diminui pois nos sentimos “como que acusados”, mesmo que seja uma acusação que vem de dentro e nunca de Deus. E o esfriamento se torna desânimo, o desânimo em afastamento e  chegamos a pensar que a distância  é a única solução. Vem o afastamento. 

A entrega do boletim : Finalmente, os mais corajosos resolvem “entregar o boletim” e mostrar ao Pai suas notas baixas. Apresentar o seu arrependimento, ouvir o justo sermão e voltar a “estudar” como se deve. Este entregar o boletim é o que chamamos de Sacramento da Reconciliação ou Confissão. Quanto mais vezes “mostrarmos nossas notas baixas” ao Pai, mais rápido podemos voltar aos estudos como todo filho amado deveria fazer. E o Pai que nos criou e sabe das nossas fraquezas e limitações nos perdoa e nos diz: “Vá e não volte mais a pecar.”


CABELOS CASTANHOS

Dezembro 16, 2007

Foi um dia cheio. Os tempos não estão fáceis e a cada dia há uma grande batalha a vencer; o caixa baixo, clientes difíceis, funcionários, sócios e tudo mais.

Finalmente tinha chegado ao fim e eu estava chegando em casa aliviado por mais um dia com o dever cumprido. Entrei em casa e encontrei minha esposa fazendo o jantar, eu estava mesmo faminto, ela estava perfumada, fato que eu elogiei ao beija-la. Mas havia algo de diferente no ar e logo percebi que o seu dia com as crianças não havia sido mais fácil que o meu.            

Tínhamos pouco tempo para jantar e para conversar pois havia uma reunião em nossa paróquia logo em seguida. O jantar foi servido e eu dei a minha primeira escorregada, o que mais tarde eu perceberia tinha sido a segunda e não a primeira; olhei para a mesa e enquanto minha esposa servia a todos perguntei onde ela havia comprado aquele “frango raquítico”. Sua expressão se transformou imediatamente e a partir daí não mais ouvi sua voz durante o jantar.

             Saímos correndo após o jantar e chegamos à reunião. Cumprimentamos os amigos, brincamos com os mais próximos e sentamos pois o padre já havia começado a reunião.  No meio da reunião , num daqueles momentos em que as conversas paralelas superam o tema principal, uma amiga nossa disse bem alto olhando para a minha esposa:

“Nossa! Como ficou bom o seu cabelo pintado de castanho!”

E foi aí que eu percebi que ela havia pintado o cabelo e certamente eu a havia decepcionado por não notar a mudança logo ao entrar em casa. Terminada a reunião, no caminho de casa, vim me desculpando e tentando amenizar o meu deslize, ou seja, a minha cegueira em notar que ela havia se preparado com perfume e cabelos pintados para que eu a notasse e para que eu me agradasse do novo visual. Feita a besteira, tive que assumir. Ela permaneceu calada e eu ansioso por me reconciliar.

             Esta é uma pequena história verídica e que acredito ocorra com qualquer casal. Uma distração, uma frase impensada e pronto conseguimos magoar o outro. Para quem  ama não há coisa pior do que entrar em uma situação destas. Queremos apagar estes momentos e voltar a viver intensamente nosso amor, mesmo em uma vida comum de trabalho, filhos, reuniões etc 

            Há um outro relacionamento que temos, e que cometemos tantos ou mais deslizes do que com nosso cônjuge, e a grande diferença que ocorre neste relacionamento é que quando magoamos o outro lado, não podemos ver o seu olhar de tristeza ou de descontentamento. Este é o caso do nosso relacionamento com Deus. E é sobre ele que vamos falar um pouco mais neste texto.

                            Infelizmente ainda não podemos estar frente a frente com Deus, olhando para sua expressão de aprovação ou reprovação quando fazemos algo aqui nesta terra mas há vários meios de vermos sem olharmos com os nossos olhos.   

·         Oração – A oração é um meio eficaz de aproximação e diálogo com Deus. Sim eu disse diálogo, pois com a oração podemos ver a Deus de uma forma interior. A expressão : Deus fala aos corações. ,não é só uma frase bonita para quem realmente ora e se abre para Deus. É na oração que o Espírito Santo age em nós, fala dentro de nós e transforma nossa consciência, tornando-nos mais sensíveis a vontade de Deus.  

·         Conhecendo sua Palavra – A Palavra de Deus contida na Bíblia tem que ser conhecida por nós. Lá estão as mais lindas declarações de amor que alguém  fez para os seus amados. A Palavra de Deus fala profundamente aos nossos corações, são atemporais e tocam a cada um de uma forma diferente e especial. Daí ser chamada de Palavra Viva. Qual é o apaixonado que não lê as cartas de amor do seu amado ? Qual é o esposo que não quer compartilhar seus sonhos com sua amada esposa?  

·         Reconciliação – Como no meu retorno daquela reunião na paróquia , onde eu tentava corrigir meus deslizes com minha esposa, pedindo desculpas pela minha distração, muitas vezes nos sentimos assim com Deus e a melhor forma de nos sentirmos melhor é a reconciliação. Com minha esposa, o sorriso e a expressão leve me certificaram que tudo estava bem, com Deus é difícil a mesma coisa, ou melhor há um jeito, o Sacramento da Reconciliação, e por isso é que a Igreja nos ensina que não é o homem padre que absolve os nossos mas Deus na pessoa do padre que está ali.  E podemos então sentir o “sorriso e a expressão leve” de Deus quando o sacerdote nos absolve e nos acolhe como a filhos amados.  

·         Eucaristia – Você já se desentendeu com sua esposa e depois se reconciliou? Sentiu aquele alívio de tudo estar bem novamente ? Viu uma paixão reacender dentro do seu coração ? Deu vontade de um momento de maior intimidade ? Exatamente isso que você está pensando ! É natural que tudo isto ocorra com o casal. Deus nos fez assim, e fez o sexo como uma ferramenta importantíssima para que o relacionamento do casal seja completo. E o nosso relacionamento com Deus tem um ápice, um momento máximo de expressão de amor e este momento é a Eucaristia. Uma relação de natureza diferente do relacionamento sexual do casal mas com algumas semelhanças , guardadas as devidas proporções. Jesus por meio do seu sacrifício supremo de amor, morreu e ressuscitou e na Eucaristia o Corpo de Cristo é entregue para nós na forma de Pão. Nós o recebemos e a presença de um Deus vivo se faz total em nós. É o momento máximo de união de quem se ama. E a missa, onde se celebra a Eucaristia tem uns passos interessantes para serem comparados com nosso relacionamento de casal.

Primeiro nos reunimos e há um momento de pedido de perdão; depois há um diálogo onde ouvimos a Palavra de Deus na liturgia e na homilia; segue-se então uma declaração de que cremos naquele amor e temos fé nos passos que teremos que dar, e esta é a profissão de fé; então a outra parte tem oportunidade de falar e temos a oração dos fieis; inicia-se então a oração eucarística toda uma preparação para o momento máximo do relacionamento entre o cristão e o seu Deus. São declarações de amor; relembra-se o significado do sacrifício de Deus por amor de nós, repete-se o milagre da transformação do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo e tudo finalmente está pronto para o recebermos, vivo e presente, amor infinito, fonte da paz, Jesus.

Após a comunhão, segue-se a ação de graças, momento de profunda intimidade entre nós e Deus. E assim termina a missa.

Você viu alguma semelhança com o relacionamento de casal ? Ou se escandalizou com a comparação ? Espero que não, pois na própria Bíblia há inúmeras comparações do relacionamento de Deus com o relacionamento do casal.  

E finalmente quero lembrar que a quaresma é a fase do ano em que a Igreja nos chama a pensar em tudo isto. Em como vai o nosso relacionamento; em quantos deslizes andamos cometendo com nosso amado e que por tanta repetição acabamos por nos acostumar com eles; e que há uma grande oportunidade para voltarmos às boas com nosso Deus.