Acabou o bimestre na escola e os dias que antecedem a entrega do boletim escolar são tensos. A perspectiva de umas notas baixas fazem com que certos olhares se tornem arredios e furtivos. Os irmãos aproveitam a fraqueza de uns e outros e fazem comentários jocosos, o que vira e mexe acaba em bate boca.
Mesmo sem saber ao certo suas notas, a culpa de não ter estudado o suficiente fica estampada na face de cada um. E esta é a fase em que ficar sozinho no quarto escutando música ou até dormindo toda a tarde se torna uma ótima fuga ou saída para diminuir a angústia da espera.
Chegou o dia . O primeiro impacto será mostrar as notas para a mãe na saída da escola. Na verdade não é nem preciso ler as notas, os irmão se encarregam de contá-las. Ai vem o primeiro sermão. É só um ensaio, o difícil será encarar o pai ao chegar do trabalho . Mais uma longa e terrível espera.
E vem a entrega. Aquela folha de papel, que no meu tempo era uma caderneta com capa plástica e fotografia , parece ter uma tonelada de peso ( me desculpem os físicos pela tonelada de “peso”). Aquela cerimônia de estender os braços com a folha na mão, o olhar baixo e um misto de culpa e vergonha na expressão dão o tema e a motivação para um sermão: -“Os pais tem toda as obrigações com os filhos, alimentar, educar , dar ensino religioso, colocar em boas escolas e os filhos só tem uma obrigação para com os pais : tirar boas notas na escola ! E o que é isto aí ?! “
Aplicadas algumas limitações de ficar o tempo que quiser no clube e tantas idas ao cinema, vamos ver o que acontece no próximo bimestre.
Esta pequena narrativa, verídica, pode parecer mais uma vez, chover no molhado, eu mesmo passei por isso e meu pai dizia:” Você tem capacidade de ir melhor, eu não tive filho burro”. Isto quando as notas eram 7,0 e não 10,0! Mas ilustram bem como a culpa nos incomoda, afeta nosso comportamento e até nos afasta de quem nós amamos . E estes são exatamente os efeitos do pecado em nós. Há um Pai zeloso no céu que sabe o que é bom para nós, para o nosso futuro, para a nossa felicidade e ” nos manda estudar”. Nós os filhos, malandros e preguiçosos , fingimos ter tudo sobre controle e “não estudamos “, e pecamos.
Primeira fase: o incômodo “Eu sei que não deveria fazer isto, mas acabei fazendo , afinal ninguém é 100% santo. Pelo menos tão rápido . Todo mundo erra. Errar é humano “. E por aí seguem uma infinidade de justificativas que tentamos descobrir para nós mesmos, para abafar aquele incomodo trazido pelo pecado. E este incômodo é o nosso “alarme contra roubos”, disparado pala nossa consciência .É bom que ele esteja sempre ligado e que o ouçamos quando disparar !
Segunda fase: o comportamento O pecado tem a capacidade de afetar nosso comportamento. É difícil ser o mesmo com aquele incômodo nos chateando. Se pecado afeta alguém próximo, não conseguimos mais encará-lo. Nos isolamos, ou nos tornamos artificias . Muitas vezes o pecado não fica sozinho pois é impossível escondê-lo sem a mentira, outro pecado e daí começa a bola de neve. Quando somos questionados sobre nosso comportamento até agredimos os outros com respostas ríspidas do tipo: “Não tenho nada e você não tem que se meter na vida dos outros! “ Pois o questionamento nos lembra de nossos erros. Em então já não somos mais os mesmos, o pecado marcou um ponto contra nós.
Terceira fase: o afastamento E por fim o pecado nos afasta de quem amamos. Como disse antes, se o pecado afeta às pessoas próximas, o relacionamento vai se complicando chegando até a destruí-lo totalmente. E com nosso relacionamento com Deus ocorre o mesmo. Nos sentimos envergonhados, paramos de orar pois nos sentimos indignos. A vontade de freqüentar a igreja diminui pois nos sentimos “como que acusados”, mesmo que seja uma acusação que vem de dentro e nunca de Deus. E o esfriamento se torna desânimo, o desânimo em afastamento e chegamos a pensar que a distância é a única solução. Vem o afastamento.
A entrega do boletim : Finalmente, os mais corajosos resolvem “entregar o boletim” e mostrar ao Pai suas notas baixas. Apresentar o seu arrependimento, ouvir o justo sermão e voltar a “estudar” como se deve. Este entregar o boletim é o que chamamos de Sacramento da Reconciliação ou Confissão. Quanto mais vezes “mostrarmos nossas notas baixas” ao Pai, mais rápido podemos voltar aos estudos como todo filho amado deveria fazer. E o Pai que nos criou e sabe das nossas fraquezas e limitações nos perdoa e nos diz: “Vá e não volte mais a pecar.”
Escrito por armandoporto
Escrito por armandoporto