CRISE DO QUE ?

Dezembro 16, 2007

Recentemente ao mencionar um sacerdote que conheci a umas pessoas amigas minhas fiquei surpreso com a notícia de que este sacerdote havia abandonado o ministério sacerdotal.

Minha primeira reação foi de tristeza, do tipo que um torcedor tem quando o seu time leva um gol, mas logo depois absorvi o impacto e comecei a pensar nestes momentos que todos nós, que somos a Igreja, temos que passar. Não dá para ganhar sempre.

Mas que crise é esta? Certamente com a divulgação que este fato teve até na imprensa, muitos devem ter dito que a crise é da Igreja, outros devem ter atribuído  a crise ao sacerdócio em si, outros no celibato e tantos outros pontos que sempre estão engatilhados nos que gostam de falar, criticar e destruir o reino que Jesus deixou para construirmos . Eu mesmo me perguntei : “Isto é crise do que ?”

Pode pensar: “Mas quem é ele para falar do assunto ? Nem padre é !”

E você tem razão, não sou mas tive a oportunidade de conhecer grandes vocações sacerdotais e ouso dar a minha opinião a respeito.

Família

O que teria a ver uma vocação sacerdotal com família ? Muito, pois qualquer vocação seja sacerdotal como matrimonial precisa de uma base firmada em exemplos de fé e de perseverança comprovadas. Não quero dizer com isso que casais ou sacerdotes que vieram de famílias desajustadas não podem ser felizes, aí eu estaria esquecendo do Poder de Deus, do Espírito Santo, aquele que sopra onde quer. Mas um exemplo de enfrentamento de crises conjugais dos pais, pois todos os pais as têm, certamente dão força para quem vive uma crise vocacional.

Quem pode dizer que não dá valor ao suporte que a experiência de um pai ou uma mãe podem nos dar nos momentos de crise ? Ou o significado da fidelidade de um pai a uma mãe, e vice-versa, durante toda a vida num momento de tentação ?

Então eu deixo uma primeira pergunta no ar:

“Estamos formando boas famílias para termos boas vocações ? “

Educação

Qualquer um concorda comigo que o nosso país só será verdadeiramente transformado, pelo menos no aspecto de igual oportunidade para todos, se houver um grande esforço por educar o povo.

As crianças desde pequenas e também os adultos que  não tiveram oportunidade de estudo devem ser preparados para o cenário tecnológico que o mundo apresenta hoje.

Hoje há maus engenheiros, maus médicos, maus advogados muitas vezes não por desleixo dos profissionais, mas porque faltou a formação que deveria para que fossem melhores como profissionais.

Eu sei que não é fácil dizer isso, mas há maus padres por falta de formação. E sei o quanto a Igreja tem trabalhado para corrigir estas falhas, que ocorreram em um certo período e que trouxeram conseqüências para todo este corpo de Cristo, principalmente no Brasil.

Bom, se tudo fosse perfeito nesse mundo para que aspiraríamos o céu ?

A maioria dos sacerdotes que conheci em crise vocacional tinham claramente uma crise de fé. Alguns estavam mais para um Pedro ao querer resolver as coisas arrancando a orelha do servo do príncipe dos sacerdotes a um golpe de espada na ocasião da prisão de Jesus, do que para um Pedro que respondeu três vezes a Jesus que o amava quando Jesus pedia que apascentasse suas ovelhas.

Outros não entendiam o mistério desta Igreja santa e pecadora, feita de homens e mulheres, esquecendo-se da presença viva do Espírito Santo conduzindo a Igreja pelos séculos até a volta de Jesus.

Outros ainda diante das dificuldades que o ministério muitas vezes impõe esqueciam-se da advertência de Jesus: “No mundo havereis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo.”

E aqui eu coloco uma segunda pergunta para todos nós leigos ou sacerdotes:

  “Nós ainda sentimos nosso coração bater mais forte quando pensamos em Jesus ?”

Tentação secular

 Gostou do título? O que eu quero dizer com isso é que o mundo de hoje nos atrai para um número imenso de tentações, principalmente mascaradas pelos eufemismos tão freqüentes em nossos tempos. Por exemplo:

Homossexualismo é opção, e não desvio, doença ou qualquer coisa que a ciência possa chamar.

Produção independente é querer ter filho fora do casamento, exemplo de grandes astros que mascaram o pecado contra a castidade e a impossibilidade de dar a criança uma estabilidade emocional de um lar com pai e mãe.

Aborto é um direito que a mulher tem sobre o seu corpo, mascarando totalmente a crueldade do assassinato de crianças,  vidas criadas por Deus e indefesas no ventre de suas mães.

Viver o agora esquecendo toda e qualquer conseqüência de seus atos, seja pela geração de um filho, pela proliferação de uma doença como a AIDS, ou mesmo por saciar uma paixão momentânea jogando fora toda uma vida matrimonial ou sacerdotal.  

Solidão

Por fim eu deixei este ponto delicado da vida de muitos e muitos sacerdotes que não encontram nas famílias de suas comunidades amparo para o homem padre , aquele que tem necessidade de carinho e compreensão, de oportunidade de desabafo a um amigo que não se escandalizará, e pior ainda não espalhará por toda a paróquia suas dificuldades. ( Leia:  Vinte pessoas e um padre. )              Assim eu termino este texto, que é breve e certamente não tem a pretensão de esgotar o assunto, pedindo a todos os leitores que não deixem que tais fatos de crises de vocação, seja ela sacerdotal ou matrimonial os afastem da oração por esta nossa Igreja,  nem os arrastem para uma crise pessoal de fé.


20 PESSOAS E 1 PADRE

Dezembro 16, 2007

Esta foi a resposta que ouvi em uma reunião em nossa paróquia quando o pároco perguntou quantos éramos. E alguém respondeu prontamente:

“20 pessoas e 1 padre !”.

Muitos riram pensando ser uma piada mas logo a reunião continuou e o fato foi esquecido. Só que, mesmo que tenha sido uma piada , ou mesmo um descuido de um paroquiano que não pensou antes de falar , aquela resposta merece uma pequena reflexão. 

A maioria de nós vê o padre como um servo , um empregado do templo , alguém que optou por nos servir nas horas boas e principalmente nas ruins , alguém que é avaliado pela disponibilidade em encomendar o corpo de um falecido , pelo tempo de suas homilias, pelo bom ou mau humor ao encontrar-nos, ou pelo rigor que trata as confissões exigindo mais de nós ou aliviando nossas culpas. E todos estes pontos certamente fazem parte da vida de um sacerdote, mas o sacerdote , o padre, o pároco ,não importa como o chamemos é uma pessoa como qualquer um de nós, com necessidades de ser aceito, de ser amado, de ser visto com a possibilidade falhar como qualquer outro ser humano sem ser crucificado pelos cantos das paróquias, como muitas vezes ocorre. 

A opção pela vida sacerdotal , certamente tráz consigo uma alta dose de renúncia, pois é basicamente uma opção pela vida de serviço e esquecimento de si mesmo em favor dos outros , mas esta renúncia ou esta opção jamais arrancará do sacerdote o seu lado humano. Se isto fosse possível que valor teria tal renúncia ? 

Vejamos então alguns pontos que podem nos ajudar a mudar nossa forma de ver ou de agir com relação aos nossos sacerdotes: 

In persona Cristi

 É sempre importante lembrar que o Sacramento da Ordem confere ao sacerdote dois importantíssimos direitos ou poderes, o de consagrar o pão e o vinho transformando-os na Santa Comunhão, presença de Deus como Alimento para nossa vida , o que já justifica uma dignidade especial ao sacerdote; e também a possibilidade de nos absolver de nossos pecados no Sacramento da Reconciliação, também chamado de Confissão, isto como se o próprio Cristo estivesse ali diante de nós e não o padre. Em ambos os casos o poder de Deus está presente independentemente se gostamos ou não do que o padre disse, ou do seu humor ao receber-nos ou “de tudo o que andam dizendo dele.” .

Se há o Sacramento da Ordem , há o poder de Deus. E quantos de nós esquecemos o Cristo da Eucaristia quando a missa é rezada por aquele padre que não gostamos. E quantas vezes não aceitamos o perdão de Deus porque o padre que nos confessou é muito “atrasado “ e “parece que está no século retrasado”.  

Ide e pregai o Evangelho por todo mundo

              Quem não teve a oportunidade de Ter um pároco que mal entendíamos o que falava ? Um sotaque italiano , português, espanhol ou mesmo húngaro que nos faziam caçar as palavras nas frases para que entendêssemos sua mensagem, ou mesmo nos desligávamos da homilia olhando as imagens de santos ou os afrescos pintados nos tetos das Igrejas. Será que chegamos a pensar que estas pessoas, um dia, deixaram para trás a família, mãe, pai, irmãos, ou até uma paixão por alguém ? Que deixaram o bairro, a cidade, a pátria em que nasceram para nos servir, para nos trazer o Cristo na Eucaristia, para nos adotar como seus filhos ? 

Amar ao próximo

             Vamos pensar que o próximo que Jesus se referiu nos Evangelhos também inclui os sacerdotes.  Você sabe o time que o padre torce ?

 Você já deu a oportunidade dele falar de sua terra, sua família, suas esperanças ou seus desencantos ?

Você já sentou para tomar uma cerveja com o padre só falando de carro, música ou futebol ? 

Você convida o padre para jantar com a sua família deixando de lado totalmente aqueles comentários sobre fulanos e fulanas que tanto te incomodam nas outras pastorais ou nos movimentos em que não faz parte ?

Você permitiu que um dia ele se desabafasse de uma decepção ou desânimo sem se escandalizar ou negar o sentimento do homem que é padre ? 

Sacramentos irmãos

 Há uma colocação que aprendi em um movimento chamado Encontro do Diálogo (Encontro Matrimonial) que enfatiza o caráter complementar dos sacramentos da Ordem e do Matrimônio. O sacerdote que encontra apoio e acolhimento de famílias de paroquianos que o respeitam e o amam como ele é,  e que o ajudam como irmãos ,tem reforçada a opção pela vida sacerdotal , mantendo acesa dentro de si a chama da vocação colocada por Deus e assumida para o resto de uma vida.
Da mesma forma o casal que assumiu o matrimônio como Cristo quer que assumamos, na fidelidade, aceitando e educando os filhos na fé, encontra no sacerdote um reforço por esta opção, um auxílio nos momentos difíceis e uma confirmação para os filhos de que a vida em comunidade é uma vida saudável e pode ser feliz , ao contrário do que se diz por aí .
 E com tudo isso eu termino esta reflexão com uma outra resposta para a pergunta inicial do texto: 

21 PESSOAS, INCLUINDO NOSSO AMIGO, O PADRE.